sexta-feira, 28 de dezembro de 2007

Estranho

OS AMANTES - RENÉ MAGRITTE

Seremos estranhos em mais alguns dias.
Sim, seremos estranhos!
Muito mais estranhos que agora quando mal sabemos nossos nomes
É o conhecer que modifica, que afasta, que desconhece.
Em breve nossos olhos se cruzarão, mas não irão se fixar.
Somos os estranhos que fazem da vida uma eterna efemeridade
É uma busca contínua por mais e mais estranhos
É uma tentativa - frustrante! – de olhar nos olhos alheios e não se estranhar.
Sim, seremos estranhos em mais alguns dias.
E o mais estranho é que seremos estranhos até ao espelho.

domingo, 16 de dezembro de 2007

Eu Quero o Natal

Músicas, filmes, enfeites.
"Então é Natal"
E eu quase nem percebi.
Como se a neve que desconheço
Congelasse-me o espírito.
E o meu pedido (pro Noel?)
É um ano novo.
Rápido. Bem mais rápido que o já velho.
Preciso ver no que vai dar a vida.
Preciso ver se a guerra acaba.
E eu quero logo o próximo natal
Quero cantar como John e Yoko
"Happy Xmas (War is Over)"
Eu quero a humanidade sã.
E isto então é a vida
E isto então é Natal.

Quebrando o espelho

Quantos amores perdidos e ódios encontrados
Por conta de que? A favor de quem?
No fim tudo isso é um nada.
Tentativa vã de impor verdades.
Mesmo sabendo que efêmeras,
Mesmo sabendo que inexistentes.
Mas é o velho desejo de salvar os outros.
Mesmo perdendo-se, mesmo sangrando...
Talvez valha a pena. Talvez;
Pode ser uma pena desperdiçar-se assim.
Preciso me ver como vejo os outros,
Pois sou parte do mundo e o espelho é um só.
Nada de espelho particular, nada de heroísmo.
Apenas humanidade.

Prisão em mim

Sou uma prisioneira!
"De onde vim, para onde vou"
São questionamentos que só me prendem
Porque ao indagar só me perco...
Sou prisioneira do labirinto da vida
E talvez,
Eu seja meu próprio minotauro.

quarta-feira, 5 de dezembro de 2007

Anjos de Luz

Vi um anjo de luz adormecer na escuridão. Parecia agitado. Talvez com medo. Dava a impressão de que era sua primeira vez no mundo. Mas havia algo em seu olhar.Algo que não consigo descrever ao certo...Uma espécie de chama! O que era aquilo? Olhos amedrontados e ainda sim seguros. Como pode? Não foi dificil perceber que havia algo distinto naquele ser. Algo que lhe assegurava uma incrivel vontade de seguir adiante. Mesmo deixando para trás parte de seu brilho. Pois este anjo, tão reluzente, resolveu apagar-se de repente e sem dar muitas explicações. Tentei perguntar o motivo. Mas ele desconversou dizendo: "serei incompreendido de qualquer forma". Foi quando então me ocorreu que talvez aquele anjo aqui estivesse justamente para entender o que os outros anjos não sabiam e provavelmente jamais iriam saber. Eu o fitava seriamente na esperança de compreender como um anjo poderia partir de seu lar, ciente do que estaria a perder e do prejuízo que poderia herdar e ainda sim estar tão seguro. Passado algum tempo nem precisei indagar. Ele mesmo disse que nos primeiros dias sentiu vontade de voltar.
Mas se perguntou "para onde?" e desistiu de desistir. Estava evidente...Aquele anjo, por algum motivo, negava o seu meio. Como se a claridade lhe incomodasse e a beleza angelical não lhe enxesse os olhos. "Seria ele então uma espécie de anjo caído?" "Não, não sou" - respondeu sorrindo e se antecipando a minha pergunta. Por vezes foi assim. Eu lhe sufoca de questionamentos e ele sempre com grande humildade e graciosidade me dizia que gostaria de saber também. Mas num certo dia, em meio a uma de nossas tantas conversas deixou escapar que a idéia vaga de perfeição o incomodava. A Verdade implicaria em relacionamento e não em si em conhecimento. Por este caminho teria chegado até aqui. É dificil descrever ao certo meus sentimentos ao lado deste ser/anjo/homem (não sei). Seus olhos expressavam uma bondade e sinceridade tremenda. Da mesma maneira como seu coração e alma se revelavam em cada palavra. Sinto vontade de ser assim também...d
e transmitir o que ele me transmitiu. Falar como... "Num lugar onde todos brilham é impossível ser útil. Assim, penso que seria melhor deixar de ser anjo. Pois a busca pela "perfeição" muitas vezes cega a quem deveria ver".
Após tantas lições, ele adormeceu e eu finalmente entendi que anjos de luz não deixam de ser anjos de luz nem mesmo diante da escuridão. Ao contrário, brilham mais.

segunda-feira, 3 de dezembro de 2007

O que lamento

O que lamento não é o fato de não teres ficado, mas de teres partido sem me levar. Não em presença física, pois a essa altura já não desejaria ir. Mas em uma memória digna de ser lembrada como um sonho bom que não dá certo e do qual se fala com carinho. Certamente assim eu gostaria de ter sido levado. Mas talvez não tenha dado tempo. Entre nós a diferença de intensidade. O inicio, o meio e o fim foram meus. E o que foi teu afinal? Eu não sei...A brevidade talvez! Simular um querer para revelar querer nenhum machuca a quem quer. Machucou à mim. Dono dos sentimentos e ilusões. Esses olhares tão distintos mostram a total falta de sintonia pela qual nos tratávamos e diante da qual lado a lado éramos capazes de desejar coisas absolutamente contrárias. Não há motivo então para lamentar a ausência de afinidades. Mas o engano...ou melhor, a impressão de ter sido enganado. Esta sim, merece ser lamentada.

Retorno II

Não aceito o "não pensar"
Para definir é preciso sentir.
Querer é bom
Mas nem sempre acontece.
Talvez por isso tenha saído.
Talvez por isso tenha voltado.
Não nego que neguei.
Na verdade, vejo nas negações
Uma vontade de auto-afirmarção.
Que pecado pode haver em querer crescer
E entender o mundo em suas maiores dimensões?
Mas o pisar nem sempre é sólido e permanente.
O caminho do conhecimento geralmente é doloroso.
Porém se trilhado com fé, possível.
E que crime pode haver na fé?!
Existem verdades absolutas.
Eu pularia de um prédio para provar
Mas a gravidade não deixaria de existir por meu capricho.
Estou de volta.
Mas ainda tenho coragem para desafiar.
Porém até certo ponto.
Aprendi que limites devem ser respeitados para nosso próprio bem
E que é impossível não deixar parte de nós no passado.
Seja essa parte boa ou não.
Encaro meu regresso como progresso.
Parte de mim se perdeu no tempo
Diante das escolhas acertadas ou não que um dia fiz.
Todavia, o melhor...
O melhor está aqui!
No sentimento de pulsar da vida que Deus me deu.



A iconografia é de Rembrandt van Rijn (1606-1669) e se chama o Retorno do Filho Pródigo.

Retorno I

Está passando do tempo.
É somente o que sei.
Não é o "momento certo".
Pelo menos não o vejo assim.
Apenas um instante particular
Para se ousar tentar por necessidade.
Essa distância toda que criei para me proteger
Agora vai diminuir gradativamente.
Decidi arriscar!
Sem muitas razões
Sem todos os entendimentos
Com muitos desacordos
Eis o meu passo cético de fé.
Preciso acreditar que é possível.
Ao menos, mais uma vez.
Boa parte de mim provém daqui.
Estou atrasado.
Perdi tempo hesitando sobre destino
É hora de construí-lo de algum modo.
Por isso estou aqui de novo.
Sem saber ao certo o que esperar ou o que dizer.
Não quero ser visto como antes
Pois não sou o mesmo
E ainda procuro respostas.
Todavia, hoje, a vontade de perguntar já não é tanta.
As implicações do descobrir não são fáceis.
Exigem equilibrio e preparação.
Eu voltei...
Sabendo que a perfeição à rigor é apenas ingenuidade.