quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Em cartaz


Era pra ser uma história daquelas sobre um mundo belo, quase encantado, que todos nós, em algum momento, gostaríamos de visitar. O script prometia uma trama montada em torno de dois personagens principais que se olhavam e amavam desde o primeiro instante. A verdade é que ele demonstrara grande interesse pelo roteiro desde o momento em que foi convidado a participar do espetáculo. Não seria a sua primeira peça e tão pouco o primeiro romance encenado. Mas por alguma razão a motivação era diferente. Ele sempre fez questão de asseverar aos quatro ventos que daria tudo de si. Principalmente quando conheceu àquela que faria o papel de sua amada. Seus olhos brilharam. E mais uma vez falou coisas como “quero dar tudo o que ficou preso nas falas antigas, toda a emoção, todo sentimento que não consegui extravasar...”, animando seus colegas que quase que instantaneamente passavam a pensar acerca da alma pura do artista que havia nele e estava desejosa de se entregar ao personagem e à realidade que dele advinha. Mas eu também estava lá e sabia que no fundo não era disso que se tratava.
Ele estava decidido a fazer daquela oportunidade a sua obra-prima. Durante os ensaios era ele quem sempre acertava todas as falas e ajudava os outros a lembrarem das suas. Era ele quem estava sempre sorrindo para todos os cantos, embora nunca tenha me notado. Acho que sua visão fora sempre a perfeição. A perfeição do palco e do espetáculo em si. Estava ali para encantar e instigar o mundo dos sonhos. Mas errou grosseiramente em não observar que nem todas as cadeiras estavam vazias enquanto ele ensaiava o seu intuito inspirador. Ele via, previa e antevia cenários, figurinos, reações, impressões e todo o universo que fazia parte daquela trama. Todavia, não foi exatamente capaz, como supostamente gostaria, de perceber o que estava indo além dele. Quis conhecer mais da bela moça com quem atuaria. A idéia era parecer o mais espontâneo e natural possível desde a estréia e para tanto, precisavam de uma intimidade real. Nada de muito anormal, se não o drama particular que se iniciou a partir dali. Quando ela aceitou a sua proposta, tudo pareceu maravilhoso. Era o principio das dores. Os telefonemas, as mensagens, os programas, os risos, o carinho, o beijo. Julgaram-se apaixonados mesmo sem saber ao certo quem estavam sendo. Pessoas ou personagens? Para ele, tudo estava claro. Era uma questão de perfeição. Para ela, nem tanto. E tudo foi como tinha de ser quando um se apega demais e o outro de menos. Mesmo quando estavam próximos havia o fosso da intensidade ou da ausência dela que os separava profundamente. Eles não percebiam. Mas eu sabia desde o inicio.
O grande dia chegou sem deixar muito evidente se aquilo seria um inicio ou um final. Eu estava na platéia. Primeira fila. Visão privilegiada. Ele foi o primeiro a entrar e definitivamente os seus olhos não puderam negar o susto. Não com o público em si, mas com o próprio palco. Como se naquele momento a verdade começasse a despencar sobre ele. Ele que sonhara e se esforçara tanto, esqueceu de considerar um fator primordial: o palco sempre deixa espaço para o inusitado, para o imprevisto. E ele percebeu isso muito tarde. A cena que mais importava lhe era ainda desconhecida, não fora escrita e nem ensaiada. Mas havia um show a ser feito. E ele o fez de maneira sublime. Foi um sucesso estrondoso em meio a um fracasso silencioso. Cada olhar, cada gesto, cada toque. Seria verdadeiro? Seria real? Naquele momento pouco importava. Tinha de continuar tentando a perfeição de que tanto falara. A obra-prima de sua existência nos palcos da vida dependia disso. Deu tudo de si, investiu o quanto pôde e no final aplausos, aplausos e mais aplausos dilacerando seu peito. O olhar havia mudado. Eu quase pude sentir a sua angustia e ouvir a pergunta que ecoava em sua mente: “o que dera errado afinal?” Ele não entendia. Eu sim! Eu sabia exatamente como tudo tinha começado e como tudo iria terminar. A história contada naquele palco era perfeita, mas a história vivida bem mais complicada. Ele realmente não sabia do final que lhe aguardava. Lembro da última cena. Foi tocante. O beijo arrancou suspiros e mais aplausos. As luzes se acenderam e os seus olhos mais uma vez brilhavam. A peça continuou sendo apresentada por toda aquela temporada de inverno. Não perdi um dia se quer, porém não observei mais o mesmo brio naquele olhar. O que por sinal me dava muito prazer. No entanto, voltando ao dia da estréia, após os agradecimentos ele continuou ali parado, olhando-a com o coração na mão, querendo com todas as suas forças se entregar à paixão. Sim, ele estava apaixonado e ninguém poderia negar isso, nem mesmo eu. Foi quando resolvi também entrar em cena. Levantei calmamente de meu lugar na primeira fila e me dirigi ao palco. Ele não percebeu a minha aproximação, mas garanto que nunca mais irá esquecer a minha partida. Não por mim mesmo, porém por aquilo que tomei de suas mãos, de seus olhos e de seu coração. Levei embora a obra-prima que ele havia produzido para si e que não poderia ser sua. Eu também amava com todas as minhas forças aquela mulher e de modo algum poderia abrir mão disso. Penso que assim como ele, me indaguei alguns dias sobre o beijo...fora ou não fora real? O que significava? Hoje já não importa. Importa o que ela me contou. Disse que quer ficar comigo e que aquilo foi um erro. Devo acreditar? A nossa história também era pra ser perfeita e talvez de algum modo seja. A nossa história não é a mesma daquelas que se contam num filme e muito menos em cima de um palco determinado, onde se conhece todas as cenas e as falas estão decoradas. É tudo bem mais incerto que isso. Bem mais incoerente do que se imagina. Com ações contraditórias, palavras impensadas e atitudes que doem mais que qualquer ferimento. Mas enquanto houver motivos a gente segue em frente, tentando...quer dizer, nem sempre há motivos. E dai a gente deve escolher se é hora de parar ou criar o novo a partir do que se tem. Por alguma razão eu a trouxe comigo e agora preciso dar mais um passo. A nossa história continuará em cartaz...se será o fim ou um recomeçar...a próxima temporada dirá. Garanta já o seu ingresso porque o show da vida não pode parar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

"Canções da vida em notas tristes"


Tudo o que sei é que elas existem. As fases negras da vida são verdadeiras rupturas daquele mundo imaginado e pretendido. Uma espécie de mergulho em direção ao que jamais se desejou conhecer. Não se trata de uma escolha. É a vida. Ou pelo menos uma parte bem nefasta dela. Você tenta pensar numa realidade diferente e percebe que não consegue fugir. Ao contrário do que assevera aquela popular filosofia, o poder da mente não resolve todos os problemas. As marcas e cicatrizes espalhadas por uma existência impedem qualquer distração. Você sorri como os outros, fala como eles e com eles...mas as preocupações são bem distintas. Você não pode deixar de viver e deve correr atrás das mesmas coisas que todo mundo procura. Mas lá no fundo sabe que existe um limite. Sabe que não poderá ir muito além, que o máximo de si talvez nunca seja o suficiente para reverter o quadro. Esse fardo é o segredo mais dolorido que você carrega. Não fala dele pra quase ninguém e quando pensa em falar, pensa também em sumir. Um surto de inferioridade? Não. É bem mais que isso. O que se sente não é um simples medo de não ser reconhecido por alguém. Mas é o medo de reconhecer e amar o outro sabendo exatamente o que se é, o que se foi e o que continuará sendo independentemente do seu querer. Não estou dizendo que as fases negras da vida são só desgraças. Acontecem coisas boas nesse interregno. Coisas boas que em geral não se consegue manter por muito mais tempo exatamente pela obscuridade de cada uma das nossas facetas fisicas e espirituais. As fases negras existem, eu sei. Para todos? Quem sabe. É melhor que não. Elas costumam produzir alguns efeitos devastadores e durar bem mais do que se gostaria. E disso, infelizmente, não tenho a menor dúvida.

terça-feira, 25 de novembro de 2008

Para não sonhar

Eros e Psique, de Antonio Canova.

Apenas mais uma vez te tenho em meus sonhos.
Apenas mais uma vez.
De hoje não passa a confirmação do meu desprezar-te.
Adiante relembro apenas as dores
causadas por teu coração que insignifica o amor.
Os odores resultantes de um conviver apodrecido.
Apenas mais um sonhar para eu te negar enfim,
todas as possibilidades de me acessar.
Encerra-se a temporada dos sonho.
Irei em busca da coheita do real.
Para a tua indiferença
- após este ultimo sonho -
o meu olhar diferente...

Novos sonhos.

"Só pra viver em paz"

Qual é mesmo a diferença entre a glória e o fracasso?
É tudo tão infame, tão hipócrita
Uma vitória tão sem nexo.
Vencer e continuar levando uma responsabilidade imposta.
Ninguém escolhe ser bom: torna-se.
São as vivências, o cotidiano partilhado.
E no fim, já não pode haver vacilo.
Luta-se uma guerra onde não há vitórias;
Apenas paz temporária.
Trégua para reconstrução de novas armas de guerra.
Nunca o inimigo é vencido.
Há também a certeza de nunca ser derrotado.
Apenas um herói tolo lutando, lutando...
Parece já nem saber o "por quem", o "porquê"...

E se não existe vencido e vencedor
porque mesmo busco a diferença entre a glória e a derrota?
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Imagem: Hilary Swank no filme Menina de Ouro
Música para este post.: O Vencedor - Los Hermanos. O título do post. é o ultimo verso da canção.

quarta-feira, 5 de novembro de 2008

Devaneando

A mente vagueia dispersa perscrutando uma realidade que se vai...
Antes de existir por completo o concreto é dificil de ser alcançado
Construimos tarde e hoje as projeções se dissiparam...
Aquele mundo criado foi sufocado pela realidade que se foi, mas voltou
Sem sentidos e formas o vento silencioso do desconhecido se impôs.

quarta-feira, 29 de outubro de 2008

Entre velhos e novos caminhos

Perdi o caminho pelo qual eu caminhava feliz e é certo que nele não posso mais trilhar. A estrada já não mais existe para um coração que porta lentes novas.
Na estrada nova caminho lento mesmo sendo levada à andar rápido. Na estrada nova eu (re)conheço as casas, ruas, bancos, avenidas...
Na estrada nova há um espelho enorme onde todos os dias sou obrigada a parar por uns minutos que sejam. É a parte mais dolorosa do caminho. Sei que conheço aquela que vejo no espelho da estrada, mas porque parece-me tão distante? Tão alheia?
Não posso quebrar o espelho. Essa possibilidade por si só já me faz sufocar em dor. Causa-me delírio.
Não posso sair da estrada porque no antigo caminho da "felicidade" já não sou bem vinda. Nem feliz. Não! O certo é que o caminho já não mais existe. Não pode existir. Morreu junto ao meu desesperado choro em busca de solução sem esperanças.
No caminho novo existe sempre o momento do espelho. Não existe sempre dor. Existe também bons momentos de felicidade. Existe quase sempre nostagia. É um bom preço pelas lentes novas e caminho antigo? Não sei, não sei... E ao olhar o espelho também não sei distinguir se o que vejo é o meu "agora", meu passado imediato ou meu futuro próximo.

terça-feira, 28 de outubro de 2008

Ao pé do ouvido


Eu posso até jurar - se isso de algo lhe servir...

Não sei mais que você!

Também não sou o mais forte.

As vezes a vida ainda me assusta.

Mas o que se pode fazer?

É preciso seguir tentando.

Você sabe, tentar sempre será um ato de coragem.

Nisto, acredite, sempre!

Os medos e as imperfeições podem nos ensinar de vez em quando.

Mas serão as situações limites que definirão de imediato quem seremos.

Não espero que entenda o que também não compreendo.

Se resolvi dar o ponto que nos separa

É por acreditar que juntos não seríamos mais do que somos agora.

A parada chegou.

Precisamos descer para caminhar um pouco mais com as próprias pernas.

O que faço neste instante é estender as mãos para que desçamos juntos os primeiros degraus.

O que virá depois....

Bem, o que virá depois será o motivo de nosso futuro (des)encontro.

quinta-feira, 23 de outubro de 2008

Da minha ausência

Quando estive ausente
Fui invadida por uma intensa vontade de voltar.
Sentia o perfume, o gosto, a impertinente ausência
De tudo o que estava distante.

Quando estive ausente
Fazia planos para o meu retorno
Sonhava com a presença - se minha, se tua –
Tanto faz!
Sonhava apenas com a presença constante.

Quando estive ausente
Deixei a vida correr ao largo
Tornei-me observadora incessante do estar junto.

Quando estou presente
Sou absorvida pelos indícios de uma falta
Chamada saudade.

Quando estou presente
Nada sou além do espectro
De quando estive ausente.

Quando ausente...
Quando presente...
Serei humana ou serei saudade?

terça-feira, 21 de outubro de 2008

Razões

Há na vida razões pra tudo.
Pra pensar, o que der e vier
Viver não é tudo, é tudo de um pouco
Sonhar faz parte
Razões pra quê?
Aprender a viver, ser feliz com...
a metade que tenho.
Sonhar é um sonho
de que a vida só é bela
quando alguém quer que ela seja.
A música é linda, é uma poesia
de que a vida não basta.

Ivson Souza

Sem fundo

Não sei se calo, falo ou escrevo.
Penso em calar mas não aguento.
Quero falar mas não sei como.
Tento escrever e não me encontro.
É quando finalmente me rendo e entendo os sussurros da minha alma.

Sabores e amores - experiências pessoais

Somos extremamente influenciados por nossa definição de gosto. E entenda-se por gosto aquele sentido capaz de distinguir e apontar para uma predileção relativa aos sabores experimentados comumente na ingestão de alimentos, mas não somente à eles. Não por acaso costuma-se dizer que gosto não se discute (se lamenta..rs) devido a peculiaridade de cada ser humano em estabelecer o que é bom ou ruim para si. Neste sentido, o conceito de gosto é ampliado e passa a dizer respeito a todo um universo sistemático construído em torno de cada individuo. Mas o interessante é perceber que o gosto é uma invenção que exerce considerável domínio sobre seus inventores. E é através deste domínio que surgem os aspectos de naturalidade, como se cada um carregasse impresso em si, e desde sempre, o que iria gostar ou deixar de gostar. Todavia, o gosto não é algo pronto e muito menos acabado. Permitimos (na maioria das vezes inconscientemente) que ele nos altere, nos modifique e diante deste processo o próprio gosto é modificado, recodificado, ou mesmo reinventado. Sou uma prova cabal do que afirmo.
Com respeito à alimentação, sempre fiz questão de comer somente o que gostava. E convenhamos, quando se come o que se gosta sente-se um enorme prazer! E este prazer era minha maior motivação para seguir desprezando o que considerava ser inferior. O problema é que dificilmente há de se imaginar que tal prazer, ou melhor, que tal gosto, possa atentar contra sua própria existência. Foi o que literalmente aconteceu comigo. Descobri em meio à dolorosas experiências que o que eu mais comia e gostava era também o que mais me prejudicava e consequentemente deteriorava. Agora, sou obrigado a comer de tudo o que não gostava. Muito embora, para meu espanto, tenha percebido que o que antes eu dizia não gostar não é ruim. Tá, também não vou dizer que é a melhor sensação que já tive no paladar. Porém passa longe de ser detestável e melhor, faz bem! Hoje me pergunto se pode haver maior prazer do que cuidar de si e da vida que se possui(?).
De certo o meu gosto me mudou e eu mudei o meu gosto. Já não é a simples sensação do agradável que importa e impera, pois nem tudo o que é bom faz bem. O que por tabela provoca uma reflexão ainda maior sobre o terreno das sentimentalidades. É fácil dizer o que se procura numa pessoa. O difícil é se manter fiel a isso quando se encontra alguém. Eu gosto de fulana pelo que ela é ou pelo que ela pode me dar ou render (seja lá emocional, física ou financeiramente)? Por mais estranho que pareça o nosso gosto, ainda que camuflado por nós mesmos, pode sim estar apenas calcado na vontade de sentir prazer (referido aqui na sua mais ampla dimensão). Não que o prazer seja algo condenável ou abominável, mas está longe de ser um fim em si mesmo e quando é tomado como fim em si mesmo a regra é acabar de maneira trivial, como se as pessoas envolvidas estivessem apenas experimentando o tempero alheio para dizer meramente se é bom ou ruim. É possível gostar desse jogo. Como também é possível estar perdendo quando mais se quer e pensa estar ganhando.
Enfim, cada um (des)conhece o gosto que tem. O que quero terminar dizendo é que os conceitos de gosto e desgosto estão muito mais relacionados à hábitos condicionantes dos grupos nos quais convivemos e nos mantemos do que propriamente à natureza humana ou à personalidade individual. É possível mudar tudo isso. Pode-se gostar do que antes era ruim, feio, detestável, brega, etc. Geralmente precisa-se apenas de bons motivos. O meu está diretamente relacionado a vontade de viver bem, de ter uma rotina, de poder me movimentar livremente, fazer as coisas que gosto e correr atrás de quem quero bem. Há de se pensar que todos querem isso. A idéia é de fato muito agradável, mas é preciso lembrar que gostamos de maneiras diferentes e por isso nem todos sabem ou conseguem dar razão a este querer quando realmente precisam; o mundo do prazer é mais prático, porém também mais perigoso. Acho que finalmente estou aprendendo como se faz e o porquê de se fazer. Os sabores e amores continuarão ao nosso redor para furtar a seiva que ainda nos resta ou para consolidar uma existência ainda desconexa de seu elemento principal.
No fim, realmente é tudo uma questão de gosto.

sexta-feira, 3 de outubro de 2008

Ser ou não ser? Hoje, tanto faz.

Melhor não existir por meio de palavras...
As palavras têm sempre contornos precisos e nem sempre é preciso o que penso e pensam sobre mim. Poderia tentar dizer 'o que não sou' ou 'o que gostaria de ser'. Mas 'não sou' muitas coisas e 'gostaria de ser' tantas outras... De modo que não diria muito afinal.
Então, melhor dizer o que não diz nada.
Assim, todos serão livres para dizer alguma coisa, ainda que digam o que não condiz. Mas não me leve a mal.
Apenas rejeito a idéia de traduzir a mim mesmo e não tenho a ânsia de ser conhecido por todos.
Me basta ser dos que são e serão eternamente meus.
Pra quê procurar sentidos se as estrelas são mais belas?!

segunda-feira, 29 de setembro de 2008

Definidos pelo indefinido

As definições que espero e quero, não tenho.
Você não fala. Eu não peço.
Na verdade quando falo me perco.
Este som desconcertante que ecoa próximo a mim me desarma.
Era tanto a dizer que não consigo lembrar.
Não vale anotar...
Pensei em esquecer, mas é pensando que lembro mais.
E como lembro...
Não são as diferenças que me assustam.
Mas a alma reservada, inconstante e insegura que conheço tão bem.
Não posso cobrar nada de alguém que como eu é refém de si mesma.
Mas me cobro por já não ser refém de mim e esperar tanto.
Eis o fato que odeio admitir:
As definições que espero e quero, já tenho.
Mesmo não querendo, elas já estão em mim.

sábado, 27 de setembro de 2008

Elegia para amor o que ainda não veio

Hoje mais intensamente que em outros dias
Lembrei-me de ti.
Era como se a cada segundo eu pudesse sentir a tua presença
Que nunca tive.
Enquanto desarrumava meus cabelos que não foram bem penteados,
o vento da manhã trazia-me a angustia de ter saído do teu lado.
Era como se uma saudade que desconheço
viesse ao peito para tomar o lugar do conhecido vazio.
A minha tarde foi ocupadíssima por mil coisas da profissão que amo.
Mas cada objeto de memória que eu me dispunha a restaurar,
Perguntava-me sobre quais seriam os objetos a remeter a memória de nós dois.
É noite. O amor ainda não veio.
Pela estrada, apenas o piano chega até esse meu sertão

que outrora tu também pisaste.
Naquele tempo os amores eram outros
Mas ainda sim, levemente nos olhamos e sorrimos.

Hoje, enquanto o solista dribla o frio

enchendo a alma dos presentes com doces notas
Eu apenas espero ter a tua presença em alguma sonata.
Mas as todas as sonatas chegam ao fim, o concerto chega ao fim
Só o amor ainda não veio.

sexta-feira, 26 de setembro de 2008

Minha solidão

Cá estou...
Eu e a minha velha solidão.
Tenho outros amigos...
Mas não com a mesma constância.
Solidão e eu crescemos juntos, nos damos bem.
Rimos, choramos e brigamos...tanto...tanto...
As companhias fazem bem quando não sufocam, não matam.
A solidão me alimenta.
Aprendi em meio ao silêncio:
Solidão não é tristeza.
Apesar de estar um pouco triste agora...
Não preciso de tristeza pra me sentir só.
Embora só seja mais fácil de se sentir triste...
Enfim, solidão é certeza.
Precisamos ficar sós de vez em quando.
Vão nos deixar sós algumas outras vezes.
E o que fazer nestes instantes?
Podemos lamentar? Podemos.
Mas no fundo há bem mais que isso.
Há possibilidades infinitas de se conhecer e reinventar.
Tenho uma teoria sobre isso.
Acho que toda criação provém de um momento de solidão.
Por menor que ele seja ou pareça.
Reagimos à pessoas e meios.
Mas não sem antes concentrar, explorar e usar o que há em nós...
Sem usar uma parte criativa da solidão.
Minha dor ninguém vê ou sente.
Mas não sofro pela solidão em si.
Todos somos sós de algum modo.
Sofro pela decepção, pela ausência.
Pelo desencanto, por meus sentimentos.
Choro por pessoas e relacionamentos, situações e realidades.
Então me recolho...assim como o faço agora.
Junto o que sobrou e depois saiu para o mundo novamente.
Não há razão para fugir da vida.
O tempo dita os desencontros...
Mas sempre encontro essa velha amiga.
Solidão e eu moramos juntos, nos damos bem.
Somos de todos e de ninguém.

quinta-feira, 25 de setembro de 2008

"Todo fim faz-me clarear"


O que sinto não é longe
Mas distante de minhas mãos.
Esses sorrisos, gestos, cores
Repetidos à exaustão pela ausência
Flutuam sem mácula perto do coração...
Lugar incerto...misto de eterno com efêmero.
"De repente, não mais que de repente..."*
O comandante à deriva de seu barco.
Vai naufragar...vai navegar...
Há muito o que sangrar!
A direção é o que há por detrás da neva.
Quem sabe em outro porto o que era torto se ajeite
E o que era pra ser finalmente seja.
Marinheiros, eis o lema:
Terra firme apenas quando navegar não for opção.
Julguem vocês:
O que não é prevalecente pode ser necessidade?
*Postado ao som de Soneto de separação - Vinicius de Moraes

terça-feira, 23 de setembro de 2008

Os tempos nefastos de cada um

Não me orgulho das próximas palavras.
Mesmo não as conhecendo ainda.
Mesmo podendo modificá-las.
De algum modo sei que o DNA não mudará.
Elas são filhas legitimas da dor.
Por isso, nascem marcadas.
Que me perdoem os bravos e os fortes!
Hoje não tenho belas lições de coragem para contar.
O silêncio de algumas lágrimas falam por mim.
Eis um tempo próprio que certamente irá passar.
Mas não sem levar ou deixar algo impresso numa folha qualquer.
Enquanto me ajeito num carro e olho fixo para o céu tentando esquecer a dor
Me dou conta do quanto sou agraciado por sentir.
É verdade, ainda estou vivo.
Meu problema nem é tão grande assim.
Numa hora a dor irá passar
Mas e esse choro? Por que não pára?
Não...ele não pode parar...
É ele que me lava, alimenta e restabelece.
Não tenho que suportar tudo.
Tenho o direito de manifestar o que sinto.
E o que sinto neste momento se manifesta muito bem pelas lágrimas.
Elas não são apenas de sofrimento.
São de alguém que continua na lida apesar dos dias nefastos.

A entediante espera

Não preciso de novos ares e desconfio que eles nem se quer existam.
A companhia do que sinto e penso é uma certeza ainda que indesejada para todos os momentos e lugares. Perder a vontade e não querer mais é um direito comum à seres entediados.
Não sei a razão de ser do tédio. Mas ele existe. Como existem tantos amigos falando qualquer coisa pra preencher a lacuna temporal de uma frase. No fundo de uma xícara vejo vidas e palavras jogadas ao vento da superficialidade e me pergunto se serei uma delas. Estou meio perdido nessas ondas reverberantes de silêncio. Gostaria de adormecer profundamente para o despertar mais singelo e belo que jamais vi. Mas a vida não é encanto e desconfio sentir falta disso: pessoas de tirarem o fôlego e momentos regrados por uma seiva que diariamente morre comigo. Disto, acho que desconfiarei eternamente querendo agarrar.

segunda-feira, 22 de setembro de 2008

As Três Marias


Hoje eu escrevo minha trajetória porque sinto um amor puro dentro do meu peito. Escrevo em papel, mas é como se desenhasse estrelas. Não que eu observe o céu agora; estou entre as quatro paredes do meu quarto e só sei da noite devido ao dormir cansado na cama ao lado, mas fecho os olhos e posso visualizar todo o universo. Ou uma das partes que me é necessário nele.
Hoje eu escrevo porque duvido das razões da memória e tenho medo que a "humanidade" nos fira.
Hoje eu escrevo para que quando adormecer, possa tornar-me guerreira e sem temor tal qual Orion envolvido pelo belo cinturão.
Hoje eu escrevo e sou Orion porque sinto a presença, a força e o amor de minhas três Marias.

Música para este post: Sempre – Chico Buarque

domingo, 31 de agosto de 2008

Limpidez

Diz o ditado que antes tarde do que nunca.
Talvez seja só um pouco tarde
Mas ainda há tempo: é o presente!
E o presente pra mim é liberdade.
Não a utópica liberdade de antes.
Uma liberdade realista fundada no agora
Com grande choro, rios de lágrimas
Fluentes para toda à vida!

Assim, caminho em busca da tesoura, ou algo
qualquer que corte o que meu coração já decepou:
Sonhos vãos, miudezas desnecessárias
Para a essência de uma vida.

Precisei ganhar feridas
Mas agora percebo que são rasas
Comparadas às cicatrizes que parecem sumir
frente a uma onda voraz de sentimentos
livres.

Meus olhos ardem e ainda assim vejo tudo límpido....
Uso minha limpidez!

domingo, 6 de julho de 2008

Angustia

Reviro-me toda
Procuro aconchego
- Que nada!
A insensatez dos meus movimentos
revelam a angustia de um tédio maquiado.
Sorrisos quase que forçados
ajudam a exalar uma dor que não se sabe...
Nem sei se é madrugada
e eu reviro a cama tentando dormir;
Nem sei se é dia feito
e eu reviro o espíri
to vasculhando a vida.
Brigo com o tédio,
Mas insisto ser ele a felicidade para minha existência
Basta adequar-me... Assim creio!

quarta-feira, 2 de julho de 2008

Felicidade...onde estás que não responde?

Querer bater asas e não poder...
Eis a frustração comum a homens e passáros.
Diante da falta de nutrientes e sentidos
Todos, em algum momento, almejam voar!
Ir para uma terra sem males e dores.
Ou tão somente voar para conhecer os céus e a liberdade.
Mas, para tanto, é preciso romper
E não somos bons em rupturas.
Laços costumam pesar o infinito.
Talvez por isso quase sempre voemos esperando colocar os pés no chão. Me dói o peito ao lembrar a história de um homem que dedicou seus cabelos brancos em prol de laços que aos poucos se fragilizaram e partiram pelo desrespeito e ausência de consideração. Demorou, mas este homem finalmente percebeu a miséria que a sua própria vida representava. Tantas conquistas e realizações e de repente tudo perdera a razão de ser. Não havia mais com quem passear, conversar, compartilhar, sonhar... A companheira era uma desconhecida muda e suas antigas crianças, como todos os outros adultos estavam ocupados demais para se importar. Todas as coisas pelas quais ele havia lutado, agora, eram uma imensidão de nada. A realidade da vida enfim se mostrou por completa àquele senhor sonhador. Quem lhe roubara a reciprocidade afetiva? Como tudo chegou neste ponto?
Naquele momento, o homem que perdera suas bases de sustentação, por mais que quisesse, já não sabia voar. Por certo, as asas estavam ali, em algum lugar. O que não havia era coragem para romper e recomeçar toda a busca por felicidade. A felicidade que até então era o lar e o lar que se tornou estranho e hostil a este ser tão tristonho, perdido no devir da vida. O pior: depois do desabafo, tudo continuaria da mesma forma. Sem razões e final feliz.
Aquele homem realmente desejara encontrar novo fôlego e voar o mais alto possível, pelo menos por mais uma vez. Porém não se sentia em condições...e nem poderia. Os laços quando não fortificam a beleza que há na vida se encarregam de prender, descolorir e matar. Era justamente isso que acontecia com aquele homem...morria aos poucos, uma morte silenciosa e melancólica. Por tudo isso, me pergunto: quantos não estarão morrendo neste mesmo instante e com os mesmos sintomas? Querer bater asas e não poder... Será isso que me reserva o fututo?

sábado, 7 de junho de 2008

O tempo em mim

Hora de revisitar
Hora de parar um pouco
Refletir, amadurecer – quiçá!
Hora de conceituar
Ah! Horas felizes de ilusório domínio sobre o tempo!
Momentos de angustias
Mas por hora,
Apenas calmaria no mar da minha existência
Sim; chuva de lágrimas certamente haverá!
Horas, minutos, segundos...
Segundos, minutos, horas...
Apenas partes deste tempo que não sei se sinto,
Mas percebo.
E ao perceber...
(Horas, minutos, segundos...
Segundos, minutos, horas...)
A calmaria transforma-se repentinamente
no incontrolável furacão da existência.
Amores, anseios, medos
Medos, anseios, amores...
Hora de revisitar
Hora de parar um pouco
Hora de (re)significar a vida
Refletir, amadurecer – quiçá!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Lembranças

Meu segundo ano em uma escola pública estava prestes a começar. O desafio agora seria a assustadora 5ª série. Lembro-me de minha mãe falando sobre as dificuldades da vida que vão se apresentando a medida que crescemos para percebê-las e da minha irmã mais velha enumerando todas as novas matérias às quais logo seria apresentado. O curioso é que eu mesmo sentia que estava crescendo. Na adolescência o sonho de todo garoto é ser reconhecido como homem, então eu me esforçava para ser bom nas coisas que fazia. O que não necessariamente me tornava distinto dos outros, por que definitivamente eu não me considerava bom em muitas coisas. Tentava então fazer o mínimo de estragos possíveis. Isso sim, para aquela conjuntura, era verdadeiramente algo significativo. Antes de tudo, é preciso entender que o processo de transição de ensino particular para o público pode realmente ensinar muitas coisas a um ingênuo garoto de 9 ou 10 anos de idade. Como já é de se imaginar, algumas coisas boas e outras nem tanto. Mas é assim, por exemplo, que nós vamos aprendendo que o mundo visto de casa não é o mesmo do vivido na escola e que o linguajar usado na escola em hipótese alguma deve ser usado em casa, sob pena de alguns tapinhas na boca. A 4ª série havia me ensinado dois lados da vida: o primeiro, repleto de segurança, aconchego, mimo, amor e bens materiais; o segundo, quase miserável, cheio de palavras chulas, violência e perigo constante. De alguma forma eu precisei aprender a transitar entre estes dois mundos e passado o período de choque, acredito ter me saído muito bem. Nossa escola não era tão grande e também não era a mais bonita do bairro. Mas havia algo de diferente ali. Talvez por estar inserida em uma comunidade militar na maioria das vezes pairava um ar estranho, quase que de mistério. Tudo isso ajudava a formar um dos melhores lugares da minha infância, a Escola Municipal Alzira Pernambuco (entra doido e sai maluco, era o que diziam os nossos vizinhos da Escola Estadual Jarbas Passarinho, carinhosamente chamada por nós de jabá com farinha). Mas voltando em si ao meu primeiro dia de aula da 5ª série, eu poderia dizer que estava ansioso para retornar as aulas. Esse período de ansiedade começava na época da compra do material escolar, onde eu escolhia o caderno mais maneiro possível e ficava doidinho para mostrar para meus colegas. Porém a ansiedade não era tanta ao ponto d'eu querer ir para aula logo na segunda-feira. "Afinal, quem vai para a escola no primeiro dia de aula? O Neto não iria, acho que o Renato e a Brena também não". O único obstáculo aos meus planos era mesmo a minha mãe. A minha senhora não costumava dar folga quando o assunto era educação. Porém, eu consegui convencê-la de que seria apenas uma apresentação e fui liberado para ficar em casa. Quando amanheceu, senti uma das mais cruéis sensações daquele ano escolar: a água para o banho era extremamente gelada. Depois de um período estudando no turno da tarde, eu teria de me readaptar a acordar cedo. A verdade é que certamente eu teria faltado alguns vários dias letivos por conta da minha preguiça se não me tivesse ocorrido algo realmente especial naquela primeira manhã da inesquecível 5ª série. Depois de sobreviver ao banho, fui para a escola a fim de reencontrar todos os meus colegas. Para minha surpresa logo descobri que no dia anterior um certo individuo apelidado de professor resolvera dar aula. Fiquei quase indignado! "Mas que professor é esse que dá aula no primeiro dia?". Se minha mãe descobrisse sobre isso, eu estaria de quebra da minha primeira encrenca escolar do ano e definitivamente achei que estava muito cedo para isso acontecer. Melhor seria ficar calado. Depois de saber das novidades, resolvi dar uma volta sozinho na escola. A pintura era nova, mas fora isso a impressão que se tinha era de que tudo continuava a mesma coisa. A minha volta terminou bem em frente ao portão de entrada e saída, lugar onde também estavam os mastros para hastearem as bandeiras nacional, estadual e colegial. Foi ali, exatamente ali, onde aquele dia caminhou para a eternidade das minhas lembranças felizes e nostálgicas. Eu estava ali, de frente para a rua, sem a mínima idéia do que estava fazendo. A campainha tocou anunciando que a nossa primeira aula já iria começar. Eu deveria procurar minha sala, mas não fui. Por algum motivo, por alguma força maior, resolvi continuar ali espiando o tempo. Essa é a única explicação que encontro. Pois eu não esperava ninguém e muito menos costumava bancar o esquisito. Estranho mesmo foi a sensação que tive de estar subindo aos céus quando tudo começou. Não lembro da matéria, da capa do meu caderno, de quem estava sentado ao meu lado, não lembro do professor e muito menos das conversas que travei...daquele dia...lembro apenas dela...a garota que me fez acordar animado para ir a escola todas as manhãs, retornar andando para casa no sol de meio-dia, não perder nenhuma aula de educação física a tarde e lamentar profundamente a chegada dos fins de semana. Eu que não acredito em amor à primeira visto, confesso, me encantei por aquela menina antes mesmo que ela se desse conta da minha existência. Ao longe a observei. Ela caminhava com passos apressados acompanhada de uma senhora e um garoto. Logicamente, deduzi se tratar de sua mãe e seu irmão. Passo a passo, eles se aproximavam do portão e eu ali...quase estendendo um tapete vermelho, quase soltando fogos de artifício. Dentro de mim um turbilhão de sentimentos confusos. "Que menina linda". Custei a acreditar que ela estudaria na mesma escola que eu. Somente quando eles passaram pelo portão é que deixei meu ceticismo de lado. Agora, só precisava saber mais uma coisa: "qual série será que ela vai fazer?". Para minha alegria ou tristeza a resposta era bem fácil. Se ela dobrasse à direita, ficaríamos entre a 5ª (a minha 5ª pensei) e a 6ª série. Se fosse para a esquerda, seu destino provavelmente seria a 7ª ou 8ª. Nem preciso dizer que desejei com todas as minhas forças que aquelas três pessoas desconhecidas dobrassem à direita. Naquele instante nem passava pela minha cabeçinha que mesmo que isso acontecesse, ainda existiam 3 turmas de 5ª e 2 de 6ª para disputarem a primazia daquela pequena dama. Bom, de fato isso tudo pouco importou, pois eles dobraram à esquerda. Somente quando eles desapareceram no corredor foi que me lembrei da aula. Estava atrasado. Porém também estava bobo, abestalhado, encantado - apaixonado? Era preciso voltar ao normal e desesperadamente encontrar um jeito de conhecer aquela garota angelical. Voltei para sala, tomei meu lugar e fiz o possível para não demonstrar nada do que se passava em meu interior. Conversei, prestei atenção na aula, brinquei e de repente a expressão "quase meu coração sai pela boca" fez muito sentido para mim. A tal garota estava pedindo licença e entrando em minha sala. "Ela é da minha turma...", "Ela é da minha turma...", "Ela é da minha turma..."...não sei dizer exatamente quantas vezes repeti isso com euforia para mim e para o mundo. Tão pouco precisei de mais alguma coisa para saber que aquele ano escolar seria mágico...afinal, eu acabara de conhecer meu primeiro amor.

sábado, 31 de maio de 2008

Paradoxos do tempo

Escreverei versos no escaldante sol do meio dia;
Encorajarei marujos a cruzarem o oceano
na mais alta tempestade da madrugada;
Incitarei mil pássaros a migrarem
na temporada errada;
Pularei de um arranha céu;
Descerei a 100 km/h a mais íngreme de todas
as ruas do meu conhecimento,
em uma bicicleta rosa claro com cestinha,
mas sem rodinhas de apoio
[quase sem freios para um pai de cabelos a embranquecer...]
Sim, farei tudo isso e muito mais...
Basta conseguir me transformar na menina de olhos grandes
e interrogados que vejo em minhas fotografias.

No fundo estou bem,
só sinto saudade da coragem de minha infância.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Elegia do meu descanço

Lá fora alguém insiste em varrer
folhas secas, enquanto em meu ser
só há insistência em durmir.

Minha alma grita em busca do silêncio do sono
enquanto meu cérebro aquieta-se
em constante produção de palavras.

A mistura de sensações que exalam
do meu corpo, só assinalam o recomeçar
da atividade de caça em meu caminho.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Confissões de um viajante

A sensação é de extremo desagrado. Eu, o problema de saúde que insiste em incomodar, um ônibus velho sem documentação para viagem, o motorista "amarrado" com cara de coitado e mais 19 pessoas que brincavam, cantavam, falavam alto e davam opiniões. Era para ser um dia e tanto! O que na verdade não deixou de ser. Mas também não exatamente pelos motivos esperados. A expectativa era azul da cor do céu mais límpido. Quando, porém, percebi que o cinto de segurança não funcionava entendi que o clima daquele dia estava realmente sujeito a mudanças. A primeira manobra proibida e arriscada do nosso condutor apenas adicionou um certo tempero que seria definitivo para o prato final do dia: desarmonia. A "loira", funcionária federal responsável pela fiscalização do veículo no qual seguíamos, sempre esteve com a lei e a razão ao seu lado. Diferente do motorista que me pediu para contar sua história mentirosa e infundada. Neste instante eu já me sentia envergonhado e profundamente irritado com aquela situação. Primeiramente envergonhado pois de certa forma eu me sentia responsável pela escolha daquele transporte. E depois, irritado, por conta da possibilidade de todo um trabalho dar errado. Mas nós também tínhamos algo a nosso favor: a fé. Antes de alguém desistir por completo, uma oração mudou o rumo das coisas. De um jeito meio estranho e inesperado fomos liberados para seguir viagem. Todos tomaram seus lugares e eu, após soltar algumas farpas para o motorista, fui obrigado a me calar. Acontece que o meu silêncio algumas vezes é justamente o sinal de que algo não está indo bem dentro de mim. Ainda não entendo perfeitamente isto, mas quase sempre essa é a minha primeira reação diante da raiva que sinto em relação a alguém ou alguma coisa: fico mudo. Foi exatamente o que aconteceu. O motorista falava algo e eu lhe respondia com um olhar ou com palavras monossílabas. Queria que ele entendesse de uma vez por todas que eu não estava a fim de conversar. Quando finalmente chegamos à estrada que iria nos levar até o nosso destino, mais problemas. A roda por algum motivo esquentou demais e tivemos de parar. O dificil depois foi conseguir sair do lugar. As marchas não queriam entrar e enquanto o motorista forçava o motor para destravar a direção, aproveitamos o tempo para fazer uma sessão de fotos no meio do nada. Depois de alguns minutos e com certa desconfiança o carro andou e nós chegamos à "cidade prometida", já pensando na volta. Logicamente, ninguém gostaria de passar por tudo aquilo novamente. Conversamos e chegamos a conclusão de que precisaríamos renegociar o acordo. Juntamente com dois rapazes fui incubido de dialogar com o motorista e dono da condução. Tentamos ressaltar que era uma questão de justiça por tudo o que tínhamos passado nas ultimas horas. No fim, o convencemos a fazer um desconto no preço e uns reparos no veiculo. Depois da renegociação, fomos para o igarapé. O que ninguém sabia é que o igarapé era meio distante da pequena cidade e com um caminho horrivel, cheio de lama e buracos. Isso tudo, somado com a carinha de coitado do motorista, o fato dele ser pai de familia e do filinho dele estar brincando em nosso meio, fez com que eu e aqueles dois rapazes repensássemos sobre o valor a ser pago ao motorista. O que iríamos ganhar fazendo aquilo e o que o motorista iria perder? De um modo ou de outro, ele tinha honrado sua palavra e, após certos imprevistos (é verdade), nós estávamos exatamente no lugar que deveríamos estar. Foi então que decidimos conversar novamente com o motora e propor o seguinte: ele traria o restante de nosso pessoal que estava em outro ônibus até o igarapé e nós lhe daríamos todo o dinheiro. Finalmente tudo parecia ter se acertado. A paisagem era bonita, o almoço gostoso e aquelas pessoas especiais. Porém, infelizmente, isso não foi suficiente para mim. Não consegui recuperar a satisfação e alegria que ficou perdida em alguma esquina da cidade grande, poucos segundos antes do primeiro contato com aquele cinto de (in)segurança. O dia foi passando, mas não o meu descontentamento. Eu sorri, brinquei, mas também escondi que estava mal. Tentei fazer o melhor sem me dar conta de que faltava o mais essencial: espiritualidade. Na volta, o sentimento que pairava dentro de mim já não tinha nada a ver com o motorista e seu carro esculhambado. Mesmo assim, deixei extravasar minha raiva quando decidiram mudar novamente o planejado em relação ao pagamento do frete. Só Deus sabe o que senti no instante em que ouvi recusas e queixas de uma pessoa em relação a sua falta de vontade em dar a cota anteriormente estipulada diante do serviço prestado e somente pelo fato dele ser pai de familia. Talvez essa pessoa estivesse com a razão. Mas naquele instante a sua racionaliade foi o estopim para que eu desejasse de coração estar bem longe dali e no meio de outras pessoas. Dali por diante segui em silêncio. O meu silêncio torturador que quando não machuca alguém me dilacera por dentro. O dia, aquele dia, não acabou bem para mim. Findei seco, embrutecido, sem cor, brilho e humor. As melhoes recordações estão nas fotos tiradas. Quase não apareço em nenhuma delas e nem poderia. As fotos são de pessoas contentes e realizadas em seu propósito inicial e enquanto isso se dava, eu era só um corpo sem alma, apenas uma sombra a se projetar num espaço. Por tudo isso eu confesso: as vezes tenho o desejo pretencioso de querer ser reconhecido por grandes e bondosos atos. No entanto, o que há de mais certo em mim é este lado obscuro, tão mesquinho quanto desarmonioso. Ninguém pode tirar a minha paz sem o meu consentimento. Desse modo, sou o único culpado de ainda sentir os restos miseráveis do meu lado negro que insiste em se sobressair e estragar dias perfeitos.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Em crepúsculo



Não há palavras no universo vazio
Do meu coração.
Não há vácuo no universo tedioso
Do meu cérebro.
Há cicatrizes que se abrem
Há lágrimas de sangue nos meus olhos
Choro por conta de alheia estupidez.
Há um coração amedrontado
Há sentimentos sem conceitos, sem medidas...
Há relações impossíveis de saber se há
Não há alívio
Não há perdão
Remorsos... memórias...remorsos.
Não há palavras no universo vazio
Do meu coração.
Não há vácuo no universo tedioso
Do meu cérebro.
Mas há esperanças
Mas há vida(s)

Não há vácuo
No universo do meu coração.


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Música para este post.: Across the universe - The Beatles
Imagem: Sunlight - Iman Maleki http://www.imanmaleki.com/

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Lições desacertadas da vida

As vezes sou metade.
A medida razoável para fins pequenos.
Quando preciso ser mais, sofro.
Não estou acostumado a ser completo.
Mas as vezes precisamos ser sem saber.
Nem sempre há tempo.
Sendo, eu entendo com pés descalços.
Sinto dores e deixo marcas...

Depois volto pra casa e encolho novamente.
Ali não preciso ser grande!
Muito menos lutar para ser reconhecido, já sou conhecido.
Além do mais, a sensação de ter crescido está em mim.
Neste momento é o que me basta.

O norte está firmado.
A embarcação atracada à águas tranquilas.
Sei que aventuras me esperam mais ao sul.
Porém o oeste é o caminho da marcha.
Salomão fala sobre o tempo.
Eu embarco em minhas vontades quando sinto que é o momento.
Por enquanto, sou metade.
Aprendi que não preciso ser muito para estar em paz e alcançar os objetivos pequenos.
Cá entre nós, os mais importantes da vida.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Cotidiano

A Rua Zeferino Viana

Meio dia
e um tilintar de garfos e facas
preenche a rua de um sentimento gostoso
de conversas em família.

Seis da tarde
e um cochichar baixinho
de velhas senhoras
preenche a rua de causos e mistérios.

Meia noite
e um estalar de beijos com risinhos
embaixo da minha árvore
embalam a minha insônia
enquanto sonho com o amor.

Seis da manhã
e o aroma de café
envolto a saudações de bom dia
preenche de esperança e coragem
o peito dos que sai a rua
para o labutar da vida.

quarta-feira, 30 de abril de 2008

Uma questão de foco

Olhos negros...
Diga que vê o encanto!
Vamos, não pare!
A vida é corrida de cores e tons.
Por que se perder na ausência de sentidos?
Vamos, prossiga!
Diga o que há através de ti.
Chega de palidez e displicência.
Insisto em dizer:
Há uma beleza insondável no além de mim.
Por favor não se entregue às cores frias.
Veja, a primavera está à porta.
Não faça das flores detalhes coloridos de um campo qualquer.
Encontre o caminho de volta para ver sem medo.
Pode doer, sangrar.
Mas no fim sempre há mais vida esperando.
Olhos negros...
Estou em lágrimas...
Preciso rever, talvez ajustar o foco!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A leveza do sentir

Penso
Penso
Penso
Logo existo?
Bobagem!
Logo enlouqueço
Logo apodreço o coração sem fé.

Sinto
Sinto
Sinto
Logo sou bobo?
Pode ser...
Mas coração utópico é mais feliz!


Iconografia: Cabeça Rafaelesca Explodindo (1951) - Salvador Dali

domingo, 20 de abril de 2008

O perdão cotidiano

Perdoarei a mim mesma.
Perdoarei no momento da inexistência do perdão.
Perdoarei todas as letras
gastas em vão por falta de lucidez...
Tentativa falha de exorcismo sentimental.
Tentativa falha de exorcismo de mim.
Sim, perdoarei a mim mesma!
Perdoarei os retratos
que necessitam ser historicizados para ter valor.
Perdoarei os extratos bancários em vermelho
Vermelho de puro sangue já que usados como guardanapos
[após meus vômitos hemorrágicos de inocência.
Perdoarei meus erros cometidos na tentativa de acertos...
Mas também saberei perdoar aqueles previstos na maldade.
Perdoarei minha falta de perdão com as possibilidades
[de ausência da minha vida.
Perdoarei todas as minhas relações
- tão humanas! -
Forjadas em um provinciano coração.
Perdoarei assim, tudo o que não precisa de perdão.
Perdoarei a vida, a minha vida...
Perdoada na inexistência do perdão.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Elegia de uma manhã morta

Meus olhos clamam ao mundo por silêncio
enquanto eles são cortados em ardor
por conta de lágrimas que não choram.

Meu coração treme por ser só saudade
e angustia de uma vida que ensimesmada,
é só futuro...

Meus olhos pulsam e meu peito chora
por uma liberdade só possível
no quintal encantado pela possibilidade
da minha inocência de criança.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Leitura: de mim e de outros mundos*

Gosto de falar que aprendi a ler igual Paulo Freire. Sem mangas para chupar e gravetos para escrever, mas com papel de embrulhar pão e uma irmã três anos mais velha que eu. Minha querida irmã, que quando eu acertava as letras da palavra manga, não tinha manga, nem carambola, nem cajá-umbu, nem nada; mas que tinha muitos xingos e puxões de orelha para quando eu errava...
Talvez por isso aprendi mais rápido a ler e escrever.
Impossível descrever a surpresa de minha mãe ao encontrar meu nome escrito em letras garranchadas em um saquinho de pipoca, afinal, eu só tinha três anos e meio. Mais difícil ainda é contar a emoção que senti ao fazer minha carteirinha na biblioteca municipal. Até hoje me lembro do livro que continha meia dúzia de palavras: O Peixinho Dourado; escolhido por ter sido também o primeiro de minha professora irmã. Era o melhor livro do mundo para quem não se agüentava de orgulho ao sair da Jarbas Passarinho com ele guardadinho na mochila tal qual qualquer brasileiro guardaria a Jules Rimet.
Há alguns anos fui com minha irmã à biblioteca levar nosso pequeno primo para fazer sua “ficha de pegar livro”. Enquanto ele, muito ansioso, passava seus dados para a velha atendente, fomos nos sentar na parte dos infantis como fazíamos antes e começamos a procurar o “nosso” livro. Não o encontramos. Alguma criança deve ter levado para casa e não voltou para devolver. Ficamos todos decepcionados, mas meu primo logo se encantou com outro livro que certamente o fez “seu”.
O Peixinho Dourado assim como tantos outros livros queridos já não se encontra mais na Municipal; só se encontra na gente, assim como, minha irmã e eu, nos encontramos nele na nossa infância. E talvez seja essa a magia da leitura...


* O título refere-se à oficina ministrada pela professora Zélia Marques no “Encontro Letras e Artes: suas interfaces”, realizado em dezembro de 2007 na UNEB - Campus VI/Caetité. Graças à sensibilidade e argúcia intelectual da professora Zélia, fui levada a produzir este texto. A apropriação do título é minha forma míope de agradecimento.

terça-feira, 1 de abril de 2008

A angustia dos desejos

Em um lugar distante
Num lugar qualquer
eu me vejo
sempre a me inquerer...

Eu,
Que ontem gloriei por saber quebrar
Hoje me dilacero
Por não saber criar;
não saber montar, colar...
Por não construir.

Eu,
[outra vez]
no labirinto dos meus anceios!

segunda-feira, 24 de março de 2008

Fantasmas do sono

Mil fantasmas livram-se de mim enquanto durmo.
Mas há fantasmas que insistem em me possuir e rondam-me
o sono com uma sede de suicídas
E homicídas
Fantasmas que ganham a liberdade e não usufruem:
esses são os meus prisioneiros fantasmas
Que libertos pelo sono, me acordam para voltar a morada.
Cambaleante de sono e em trajes de durmir, eu me rendo...
Deixo que Morpheu trancafie os fantasmas
no torturante calabouço que existe em meus sonhos;
lugar a tal ponto angustiante à provocar delírios....
Lugar este em que eu também resido.

sexta-feira, 29 de fevereiro de 2008

Olhares Refletidos

Sinto-me nua
Tuas palavras me desfiguram
Me levam sempre para o espelho que evito.
Olhos nos olhos da imagem refletida e não sei...
Esses olhos que me devoram, são os meus?
Esses olhos que me devoram, são os teus?
Olhos nos olhos
Olhos nos olhos para me despir
Olhos nos olhos para implorar cobertores.
Olhos nos olhos para refletir
Olhos nos olhos apenas por um reflexo
Reflexo pálido, humilde e triste
Reflexo; desfigurado reflexo!
Olhos nos olhos para buscar palavras que aliviam
[mais que o melhor dos vinhos.
Olhos nos olhos para embebedar sentimentos
Olhos nos olhos para o tocar de dois reflexos
Olhos nos olhos para sentir-me-te.

sábado, 23 de fevereiro de 2008

Uma mente confusa

Ah...que coisa...
Que angústia é essa?
Não consigo nem ver tv?!?!?!?!
Será possível?!!?!?!?
Já tentei ler um livro
Mas nem minha escritora preferida
Conseguiu me trazer de volta do plano longínquo da inquietude.
Em pé, sentado, deitado...
Meu corpo desajustado parece não encontrar a posição mais confortável que tanto busca.
Esses são apenas os indícios de minha angústia.
Queria mesmo era sair de mim.
Abandonar esta capsúla mortal, tão marcada por nomes como 'erro' e 'acerto'.
Gostaria de ao menos sentir a sensação estrita da liberdade.
Mil pensamentos por minuto...
Estou tonto!!
Por que gira o mundo? Quem gira?
Minha cabeça dói.
Meus sentimentos estão agitados.
Se não incomodasse tanto seria incrivel.
A única e ainda questionável concentração está aqui:
Nas palavras que me representam
E ao mesmo tempo não são "eu" por completo.
É tão confuso...
Como se o meu querer me traisse e me entregasse ao desconhecido que sou eu.
Mas não dêem valor ao que digo.
Os indícios viraram fatos:
A angústia acaba de me consumir.

Quando o exterior se torna importante

A casa está vazia.
Os demais moradores se foram e para onde foram não devo ir.
Não agora.
Ainda pertenço a este lugar.
Solitário lugar.
Repleto de silêncio.
Apenas rompido pelo som de minha consciência
Que não fala, vaga...
Pelos cômodos e cantos livres.
Sempre existem as portas fechadas,
Quase nunca visitadas e por isso mesmo tomadas pela escuridão.
Não da noite, mas do próprio dia que não muda, não chega.
De que servem tantos aparelhos quando o entrentenimento passa despercebido?
Há muita sujeira e bagunça nesta casa.
Posso lembrar de algumas histórias...
Já houve muita vida aqui!
Agora persiste esse vazio decadente.
Casa-grande!
Quem cuidará de seus reparos?!!?
Sozinho não posso...
Preciso de ânimo.
Um pouco de sentido talvez...
Para novamente pintar e mudar ao menos as minhas próprias paredes.

segunda-feira, 18 de fevereiro de 2008

Ausência de sabores

Como é amargo o sabor do fracasso.
Ainda mais quando ele nem existe
E já nos sentimos assim...
Totalmente insípidos pela desesperança.

quarta-feira, 6 de fevereiro de 2008

De volta as cinzas II

Oh, quarta-feira!
Tu só podias mesmo ser chamada de cinzas
Quarta-feira de cinzas
Cinzas que retornam aos nossos corações
Cinzas, cinzas
É um corpo cansado que tem de ir trabalhar
Cinza, cinza
[-Cinza de rosas!]
Para um amor eterno até a quarta-feira
Cinza, cinza
Eis a cor da realidade que volta sempre na quarta-feira (de cinzas!).
Oh quarta-feira,
Só podias mesmo ser chamada de cinzas!

De volta as cinzas I

Acabou o carnaval.
Que pena!
Poder assumir as máscaras é tão feliz!
Mas eu fui de eu mesma e ninguém percebeu:
- Você veio de Feliz?
- Você veio de Soneca?
Não, não; Não usei máscara de anã
E minha felicidade foi maior que um boneco de Olinda.
No carnaval tudo é tão bom,
Tudo é tão belo.
É aceito o uso de máscaras,
É obrigatório ser feliz.
Felicidade maquiada?
Pode ser; mas pouco importa.
É-se feliz e ponto.
Nas noites dos mascarados Frínico será sempre condenado
Pois carnavalesco algum pode nos fazer chorar.
E viva o Rei Momo
Que seu único pecado é nos deixar vir às cinzas!

terça-feira, 5 de fevereiro de 2008

Uma vida sem por que

Porque uns nasceram para isso e outros para aquilo.
Eu não nasci para nada que seja útil aos outros homens.
Sou apenas mais um no meio da multidão.
Mas sou o sem sentido.

Porque uns nasceram para isso e outros para aquilo.
Mas eu sou aquele que não sabe para que veio.
O aquilo e o isso entrelaçam em meu ser;
Ou o isso e o aquilo talvez nem façam parte de mim.

Porque uns nasceram para isso e outros para aquilo.
Mas eu nasci sem sentido.
Apenas um caminhante sem estrada, sem destino.
Sem razão alguma para marchar...

Porque uns nasceram para isso e outros para aquilo.
Eu apenas nasci.

segunda-feira, 28 de janeiro de 2008

Miragens

Fora do deserto
Existem outras miragens
Tão reais quanto à gravidade.
Ficar parado é apenas o jeito mais fácil de ser alcançado.
Somos todos sobressaltados por forças que não vemos
E o que vemos, se constrói a partir daí.
A concretude deste mundo é ilusão.
Para os descrentes de opções
Nem todas as explicações dizem alguma coisa.
Afinal, não somos exatamente o que dizemos.
Por vezes nem sabemos o que estamos a dizer.
Assim, somos sem saber por completo.
Levaria mais tempo que a vida pra saber.
Somente fazemos escolhas e seguimos por caminhos.
Temos breves noções e geralmente nos apressamos a ter certezas.
Confiamos cegamente em espelhos
Esquecendo que o transmitido ali é apenas imagem invertida.
A realidade é representada continuamente sob vários prismas.

Numa verdadeira miscelânia de experiências
Onde o real desponta com fragilidade.
Fragmentado em cada individuo.
Somado em toda e qualquer relação.
Subtraído em qualquer ideologia
Dividido e reelaborado em nossa humanidade.
O real é infinito por sua multiplicidade.

Pena que a diferência seja constantemente tomada como desigualdade
E a todo momento reforcemos o medo do que nos parece estranho.

Porém permita-me dizer:
Estou fora deste deserto!
Não me importo!
Vivencio a realidade de minhas próprias miragens!

Letras tristes

Sem razão.
Sem loucura.
Sem amor ou perdão.
Aqui estou!
Mais uma vez...
Entregue ao jogo.
(De Azar?)
Sem cartas na manga.
Sem ânimos excessivos.
Sem pulso.
(Ainda há vida?)
Estou repleto de um sensível vazio!
Apagado.
À espera de algo que não vem.
Distante de mim.
Próximo ao incerto.
Sem cor.
Sem perfume.
Na dimensão do vazio.
Onde o nada é a única reserva de forças.
E eu sou apenas letras.
Mal escritas, nunca lidas e fadadas ao esquecimento.
Melhor seria ser tão somente sem consciência de mim.

sexta-feira, 18 de janeiro de 2008

Minha Liberdade ou Conhecendo Deus II

A liberdade não é uma corda, são asas!
Não posso me enforcar com minhas asas
Cortá-las talvez, é a máxima permissão.
Mas sei que sempre voltarão a crescer.
Ter asas não é ser feliz, é ser só.
Um só em si mesmo e não de universo.
Asas é possibilidade de escolha
Asas é responsabilidade com o próprio horizonte
Bater as asas ao voar não é minha escolha
É escolha de quem me criou asas
Asas que me levam onde quero
E o que quero nem sempre é o melhor:
É um bater de asas contra Aquele que me concebeu
É um fazer das asas cordas para enforcar a Ele e a mim
É um querer voltar a ser criança que não tem noção das asas.
A liberdade são asas
E que as minhas me levem a presença do Criador.

quarta-feira, 9 de janeiro de 2008

Longe?

Longe de casa, sem ninguém para me amar
por eu ter surgido de sua vida...
Longe de crianças, para me mostrar
como a vida é simples e bela...
Longe dos amigos de infância, para que eu perceba
que o presente é uma dádiva e o passado,
uma alegria memorável...
Longe de amores possíveis ou paixões fulminantes,
para me fazer sentir o coração vibrar...
Longe da minha cidade, onde tudo eu conheço
e qualquer lugar me faz bem...
Longe da minha conhecida Matriz,
onde eu posso entrar e chorar
acreditando que a Virgem me olha e me quer bem...
Mas sempre perto de Deus,
que quando achei que era tudo tempo perdido,
me trouxe pessoas para amar e me fazer entender
que sempre vale a pena o caminhar da vida!

terça-feira, 8 de janeiro de 2008

A prostituta das palavras

Brincadeiras de colar palavras
Ou quebrar por puro luxo
Inventar sentidos para o que já tem
Apenas uma nova roupagem
- para impressionar?
Prostituta, prostituta
Que evita se olhar nos olhos
Que evita sentir suas próprias palavras
Prostituta, prostituta
Apenas uma menina que se finge mulher
Criança que acredita nas palavras que diz
Palavras, palavras
Prostituídas palavras nos dedos de uma
voyeur
Que escondem verdades na cápsula do tempo
Que não emitem uma só acorde da vida
Palavras com palavras
Apenas um ruído (in)compreensível
O prazer supremo de quem prostitui palavras.