quarta-feira, 30 de abril de 2008

Uma questão de foco

Olhos negros...
Diga que vê o encanto!
Vamos, não pare!
A vida é corrida de cores e tons.
Por que se perder na ausência de sentidos?
Vamos, prossiga!
Diga o que há através de ti.
Chega de palidez e displicência.
Insisto em dizer:
Há uma beleza insondável no além de mim.
Por favor não se entregue às cores frias.
Veja, a primavera está à porta.
Não faça das flores detalhes coloridos de um campo qualquer.
Encontre o caminho de volta para ver sem medo.
Pode doer, sangrar.
Mas no fim sempre há mais vida esperando.
Olhos negros...
Estou em lágrimas...
Preciso rever, talvez ajustar o foco!

segunda-feira, 28 de abril de 2008

A leveza do sentir

Penso
Penso
Penso
Logo existo?
Bobagem!
Logo enlouqueço
Logo apodreço o coração sem fé.

Sinto
Sinto
Sinto
Logo sou bobo?
Pode ser...
Mas coração utópico é mais feliz!


Iconografia: Cabeça Rafaelesca Explodindo (1951) - Salvador Dali

domingo, 20 de abril de 2008

O perdão cotidiano

Perdoarei a mim mesma.
Perdoarei no momento da inexistência do perdão.
Perdoarei todas as letras
gastas em vão por falta de lucidez...
Tentativa falha de exorcismo sentimental.
Tentativa falha de exorcismo de mim.
Sim, perdoarei a mim mesma!
Perdoarei os retratos
que necessitam ser historicizados para ter valor.
Perdoarei os extratos bancários em vermelho
Vermelho de puro sangue já que usados como guardanapos
[após meus vômitos hemorrágicos de inocência.
Perdoarei meus erros cometidos na tentativa de acertos...
Mas também saberei perdoar aqueles previstos na maldade.
Perdoarei minha falta de perdão com as possibilidades
[de ausência da minha vida.
Perdoarei todas as minhas relações
- tão humanas! -
Forjadas em um provinciano coração.
Perdoarei assim, tudo o que não precisa de perdão.
Perdoarei a vida, a minha vida...
Perdoada na inexistência do perdão.

sexta-feira, 18 de abril de 2008

Elegia de uma manhã morta

Meus olhos clamam ao mundo por silêncio
enquanto eles são cortados em ardor
por conta de lágrimas que não choram.

Meu coração treme por ser só saudade
e angustia de uma vida que ensimesmada,
é só futuro...

Meus olhos pulsam e meu peito chora
por uma liberdade só possível
no quintal encantado pela possibilidade
da minha inocência de criança.

terça-feira, 15 de abril de 2008

Leitura: de mim e de outros mundos*

Gosto de falar que aprendi a ler igual Paulo Freire. Sem mangas para chupar e gravetos para escrever, mas com papel de embrulhar pão e uma irmã três anos mais velha que eu. Minha querida irmã, que quando eu acertava as letras da palavra manga, não tinha manga, nem carambola, nem cajá-umbu, nem nada; mas que tinha muitos xingos e puxões de orelha para quando eu errava...
Talvez por isso aprendi mais rápido a ler e escrever.
Impossível descrever a surpresa de minha mãe ao encontrar meu nome escrito em letras garranchadas em um saquinho de pipoca, afinal, eu só tinha três anos e meio. Mais difícil ainda é contar a emoção que senti ao fazer minha carteirinha na biblioteca municipal. Até hoje me lembro do livro que continha meia dúzia de palavras: O Peixinho Dourado; escolhido por ter sido também o primeiro de minha professora irmã. Era o melhor livro do mundo para quem não se agüentava de orgulho ao sair da Jarbas Passarinho com ele guardadinho na mochila tal qual qualquer brasileiro guardaria a Jules Rimet.
Há alguns anos fui com minha irmã à biblioteca levar nosso pequeno primo para fazer sua “ficha de pegar livro”. Enquanto ele, muito ansioso, passava seus dados para a velha atendente, fomos nos sentar na parte dos infantis como fazíamos antes e começamos a procurar o “nosso” livro. Não o encontramos. Alguma criança deve ter levado para casa e não voltou para devolver. Ficamos todos decepcionados, mas meu primo logo se encantou com outro livro que certamente o fez “seu”.
O Peixinho Dourado assim como tantos outros livros queridos já não se encontra mais na Municipal; só se encontra na gente, assim como, minha irmã e eu, nos encontramos nele na nossa infância. E talvez seja essa a magia da leitura...


* O título refere-se à oficina ministrada pela professora Zélia Marques no “Encontro Letras e Artes: suas interfaces”, realizado em dezembro de 2007 na UNEB - Campus VI/Caetité. Graças à sensibilidade e argúcia intelectual da professora Zélia, fui levada a produzir este texto. A apropriação do título é minha forma míope de agradecimento.

terça-feira, 1 de abril de 2008

A angustia dos desejos

Em um lugar distante
Num lugar qualquer
eu me vejo
sempre a me inquerer...

Eu,
Que ontem gloriei por saber quebrar
Hoje me dilacero
Por não saber criar;
não saber montar, colar...
Por não construir.

Eu,
[outra vez]
no labirinto dos meus anceios!