sábado, 31 de maio de 2008

Paradoxos do tempo

Escreverei versos no escaldante sol do meio dia;
Encorajarei marujos a cruzarem o oceano
na mais alta tempestade da madrugada;
Incitarei mil pássaros a migrarem
na temporada errada;
Pularei de um arranha céu;
Descerei a 100 km/h a mais íngreme de todas
as ruas do meu conhecimento,
em uma bicicleta rosa claro com cestinha,
mas sem rodinhas de apoio
[quase sem freios para um pai de cabelos a embranquecer...]
Sim, farei tudo isso e muito mais...
Basta conseguir me transformar na menina de olhos grandes
e interrogados que vejo em minhas fotografias.

No fundo estou bem,
só sinto saudade da coragem de minha infância.

quarta-feira, 28 de maio de 2008

Elegia do meu descanço

Lá fora alguém insiste em varrer
folhas secas, enquanto em meu ser
só há insistência em durmir.

Minha alma grita em busca do silêncio do sono
enquanto meu cérebro aquieta-se
em constante produção de palavras.

A mistura de sensações que exalam
do meu corpo, só assinalam o recomeçar
da atividade de caça em meu caminho.

sexta-feira, 23 de maio de 2008

Confissões de um viajante

A sensação é de extremo desagrado. Eu, o problema de saúde que insiste em incomodar, um ônibus velho sem documentação para viagem, o motorista "amarrado" com cara de coitado e mais 19 pessoas que brincavam, cantavam, falavam alto e davam opiniões. Era para ser um dia e tanto! O que na verdade não deixou de ser. Mas também não exatamente pelos motivos esperados. A expectativa era azul da cor do céu mais límpido. Quando, porém, percebi que o cinto de segurança não funcionava entendi que o clima daquele dia estava realmente sujeito a mudanças. A primeira manobra proibida e arriscada do nosso condutor apenas adicionou um certo tempero que seria definitivo para o prato final do dia: desarmonia. A "loira", funcionária federal responsável pela fiscalização do veículo no qual seguíamos, sempre esteve com a lei e a razão ao seu lado. Diferente do motorista que me pediu para contar sua história mentirosa e infundada. Neste instante eu já me sentia envergonhado e profundamente irritado com aquela situação. Primeiramente envergonhado pois de certa forma eu me sentia responsável pela escolha daquele transporte. E depois, irritado, por conta da possibilidade de todo um trabalho dar errado. Mas nós também tínhamos algo a nosso favor: a fé. Antes de alguém desistir por completo, uma oração mudou o rumo das coisas. De um jeito meio estranho e inesperado fomos liberados para seguir viagem. Todos tomaram seus lugares e eu, após soltar algumas farpas para o motorista, fui obrigado a me calar. Acontece que o meu silêncio algumas vezes é justamente o sinal de que algo não está indo bem dentro de mim. Ainda não entendo perfeitamente isto, mas quase sempre essa é a minha primeira reação diante da raiva que sinto em relação a alguém ou alguma coisa: fico mudo. Foi exatamente o que aconteceu. O motorista falava algo e eu lhe respondia com um olhar ou com palavras monossílabas. Queria que ele entendesse de uma vez por todas que eu não estava a fim de conversar. Quando finalmente chegamos à estrada que iria nos levar até o nosso destino, mais problemas. A roda por algum motivo esquentou demais e tivemos de parar. O dificil depois foi conseguir sair do lugar. As marchas não queriam entrar e enquanto o motorista forçava o motor para destravar a direção, aproveitamos o tempo para fazer uma sessão de fotos no meio do nada. Depois de alguns minutos e com certa desconfiança o carro andou e nós chegamos à "cidade prometida", já pensando na volta. Logicamente, ninguém gostaria de passar por tudo aquilo novamente. Conversamos e chegamos a conclusão de que precisaríamos renegociar o acordo. Juntamente com dois rapazes fui incubido de dialogar com o motorista e dono da condução. Tentamos ressaltar que era uma questão de justiça por tudo o que tínhamos passado nas ultimas horas. No fim, o convencemos a fazer um desconto no preço e uns reparos no veiculo. Depois da renegociação, fomos para o igarapé. O que ninguém sabia é que o igarapé era meio distante da pequena cidade e com um caminho horrivel, cheio de lama e buracos. Isso tudo, somado com a carinha de coitado do motorista, o fato dele ser pai de familia e do filinho dele estar brincando em nosso meio, fez com que eu e aqueles dois rapazes repensássemos sobre o valor a ser pago ao motorista. O que iríamos ganhar fazendo aquilo e o que o motorista iria perder? De um modo ou de outro, ele tinha honrado sua palavra e, após certos imprevistos (é verdade), nós estávamos exatamente no lugar que deveríamos estar. Foi então que decidimos conversar novamente com o motora e propor o seguinte: ele traria o restante de nosso pessoal que estava em outro ônibus até o igarapé e nós lhe daríamos todo o dinheiro. Finalmente tudo parecia ter se acertado. A paisagem era bonita, o almoço gostoso e aquelas pessoas especiais. Porém, infelizmente, isso não foi suficiente para mim. Não consegui recuperar a satisfação e alegria que ficou perdida em alguma esquina da cidade grande, poucos segundos antes do primeiro contato com aquele cinto de (in)segurança. O dia foi passando, mas não o meu descontentamento. Eu sorri, brinquei, mas também escondi que estava mal. Tentei fazer o melhor sem me dar conta de que faltava o mais essencial: espiritualidade. Na volta, o sentimento que pairava dentro de mim já não tinha nada a ver com o motorista e seu carro esculhambado. Mesmo assim, deixei extravasar minha raiva quando decidiram mudar novamente o planejado em relação ao pagamento do frete. Só Deus sabe o que senti no instante em que ouvi recusas e queixas de uma pessoa em relação a sua falta de vontade em dar a cota anteriormente estipulada diante do serviço prestado e somente pelo fato dele ser pai de familia. Talvez essa pessoa estivesse com a razão. Mas naquele instante a sua racionaliade foi o estopim para que eu desejasse de coração estar bem longe dali e no meio de outras pessoas. Dali por diante segui em silêncio. O meu silêncio torturador que quando não machuca alguém me dilacera por dentro. O dia, aquele dia, não acabou bem para mim. Findei seco, embrutecido, sem cor, brilho e humor. As melhoes recordações estão nas fotos tiradas. Quase não apareço em nenhuma delas e nem poderia. As fotos são de pessoas contentes e realizadas em seu propósito inicial e enquanto isso se dava, eu era só um corpo sem alma, apenas uma sombra a se projetar num espaço. Por tudo isso eu confesso: as vezes tenho o desejo pretencioso de querer ser reconhecido por grandes e bondosos atos. No entanto, o que há de mais certo em mim é este lado obscuro, tão mesquinho quanto desarmonioso. Ninguém pode tirar a minha paz sem o meu consentimento. Desse modo, sou o único culpado de ainda sentir os restos miseráveis do meu lado negro que insiste em se sobressair e estragar dias perfeitos.

sexta-feira, 9 de maio de 2008

Em crepúsculo



Não há palavras no universo vazio
Do meu coração.
Não há vácuo no universo tedioso
Do meu cérebro.
Há cicatrizes que se abrem
Há lágrimas de sangue nos meus olhos
Choro por conta de alheia estupidez.
Há um coração amedrontado
Há sentimentos sem conceitos, sem medidas...
Há relações impossíveis de saber se há
Não há alívio
Não há perdão
Remorsos... memórias...remorsos.
Não há palavras no universo vazio
Do meu coração.
Não há vácuo no universo tedioso
Do meu cérebro.
Mas há esperanças
Mas há vida(s)

Não há vácuo
No universo do meu coração.


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Música para este post.: Across the universe - The Beatles
Imagem: Sunlight - Iman Maleki http://www.imanmaleki.com/

quinta-feira, 8 de maio de 2008

Lições desacertadas da vida

As vezes sou metade.
A medida razoável para fins pequenos.
Quando preciso ser mais, sofro.
Não estou acostumado a ser completo.
Mas as vezes precisamos ser sem saber.
Nem sempre há tempo.
Sendo, eu entendo com pés descalços.
Sinto dores e deixo marcas...

Depois volto pra casa e encolho novamente.
Ali não preciso ser grande!
Muito menos lutar para ser reconhecido, já sou conhecido.
Além do mais, a sensação de ter crescido está em mim.
Neste momento é o que me basta.

O norte está firmado.
A embarcação atracada à águas tranquilas.
Sei que aventuras me esperam mais ao sul.
Porém o oeste é o caminho da marcha.
Salomão fala sobre o tempo.
Eu embarco em minhas vontades quando sinto que é o momento.
Por enquanto, sou metade.
Aprendi que não preciso ser muito para estar em paz e alcançar os objetivos pequenos.
Cá entre nós, os mais importantes da vida.

terça-feira, 6 de maio de 2008

Cotidiano

A Rua Zeferino Viana

Meio dia
e um tilintar de garfos e facas
preenche a rua de um sentimento gostoso
de conversas em família.

Seis da tarde
e um cochichar baixinho
de velhas senhoras
preenche a rua de causos e mistérios.

Meia noite
e um estalar de beijos com risinhos
embaixo da minha árvore
embalam a minha insônia
enquanto sonho com o amor.

Seis da manhã
e o aroma de café
envolto a saudações de bom dia
preenche de esperança e coragem
o peito dos que sai a rua
para o labutar da vida.