sábado, 7 de junho de 2008

O tempo em mim

Hora de revisitar
Hora de parar um pouco
Refletir, amadurecer – quiçá!
Hora de conceituar
Ah! Horas felizes de ilusório domínio sobre o tempo!
Momentos de angustias
Mas por hora,
Apenas calmaria no mar da minha existência
Sim; chuva de lágrimas certamente haverá!
Horas, minutos, segundos...
Segundos, minutos, horas...
Apenas partes deste tempo que não sei se sinto,
Mas percebo.
E ao perceber...
(Horas, minutos, segundos...
Segundos, minutos, horas...)
A calmaria transforma-se repentinamente
no incontrolável furacão da existência.
Amores, anseios, medos
Medos, anseios, amores...
Hora de revisitar
Hora de parar um pouco
Hora de (re)significar a vida
Refletir, amadurecer – quiçá!

quinta-feira, 5 de junho de 2008

Lembranças

Meu segundo ano em uma escola pública estava prestes a começar. O desafio agora seria a assustadora 5ª série. Lembro-me de minha mãe falando sobre as dificuldades da vida que vão se apresentando a medida que crescemos para percebê-las e da minha irmã mais velha enumerando todas as novas matérias às quais logo seria apresentado. O curioso é que eu mesmo sentia que estava crescendo. Na adolescência o sonho de todo garoto é ser reconhecido como homem, então eu me esforçava para ser bom nas coisas que fazia. O que não necessariamente me tornava distinto dos outros, por que definitivamente eu não me considerava bom em muitas coisas. Tentava então fazer o mínimo de estragos possíveis. Isso sim, para aquela conjuntura, era verdadeiramente algo significativo. Antes de tudo, é preciso entender que o processo de transição de ensino particular para o público pode realmente ensinar muitas coisas a um ingênuo garoto de 9 ou 10 anos de idade. Como já é de se imaginar, algumas coisas boas e outras nem tanto. Mas é assim, por exemplo, que nós vamos aprendendo que o mundo visto de casa não é o mesmo do vivido na escola e que o linguajar usado na escola em hipótese alguma deve ser usado em casa, sob pena de alguns tapinhas na boca. A 4ª série havia me ensinado dois lados da vida: o primeiro, repleto de segurança, aconchego, mimo, amor e bens materiais; o segundo, quase miserável, cheio de palavras chulas, violência e perigo constante. De alguma forma eu precisei aprender a transitar entre estes dois mundos e passado o período de choque, acredito ter me saído muito bem. Nossa escola não era tão grande e também não era a mais bonita do bairro. Mas havia algo de diferente ali. Talvez por estar inserida em uma comunidade militar na maioria das vezes pairava um ar estranho, quase que de mistério. Tudo isso ajudava a formar um dos melhores lugares da minha infância, a Escola Municipal Alzira Pernambuco (entra doido e sai maluco, era o que diziam os nossos vizinhos da Escola Estadual Jarbas Passarinho, carinhosamente chamada por nós de jabá com farinha). Mas voltando em si ao meu primeiro dia de aula da 5ª série, eu poderia dizer que estava ansioso para retornar as aulas. Esse período de ansiedade começava na época da compra do material escolar, onde eu escolhia o caderno mais maneiro possível e ficava doidinho para mostrar para meus colegas. Porém a ansiedade não era tanta ao ponto d'eu querer ir para aula logo na segunda-feira. "Afinal, quem vai para a escola no primeiro dia de aula? O Neto não iria, acho que o Renato e a Brena também não". O único obstáculo aos meus planos era mesmo a minha mãe. A minha senhora não costumava dar folga quando o assunto era educação. Porém, eu consegui convencê-la de que seria apenas uma apresentação e fui liberado para ficar em casa. Quando amanheceu, senti uma das mais cruéis sensações daquele ano escolar: a água para o banho era extremamente gelada. Depois de um período estudando no turno da tarde, eu teria de me readaptar a acordar cedo. A verdade é que certamente eu teria faltado alguns vários dias letivos por conta da minha preguiça se não me tivesse ocorrido algo realmente especial naquela primeira manhã da inesquecível 5ª série. Depois de sobreviver ao banho, fui para a escola a fim de reencontrar todos os meus colegas. Para minha surpresa logo descobri que no dia anterior um certo individuo apelidado de professor resolvera dar aula. Fiquei quase indignado! "Mas que professor é esse que dá aula no primeiro dia?". Se minha mãe descobrisse sobre isso, eu estaria de quebra da minha primeira encrenca escolar do ano e definitivamente achei que estava muito cedo para isso acontecer. Melhor seria ficar calado. Depois de saber das novidades, resolvi dar uma volta sozinho na escola. A pintura era nova, mas fora isso a impressão que se tinha era de que tudo continuava a mesma coisa. A minha volta terminou bem em frente ao portão de entrada e saída, lugar onde também estavam os mastros para hastearem as bandeiras nacional, estadual e colegial. Foi ali, exatamente ali, onde aquele dia caminhou para a eternidade das minhas lembranças felizes e nostálgicas. Eu estava ali, de frente para a rua, sem a mínima idéia do que estava fazendo. A campainha tocou anunciando que a nossa primeira aula já iria começar. Eu deveria procurar minha sala, mas não fui. Por algum motivo, por alguma força maior, resolvi continuar ali espiando o tempo. Essa é a única explicação que encontro. Pois eu não esperava ninguém e muito menos costumava bancar o esquisito. Estranho mesmo foi a sensação que tive de estar subindo aos céus quando tudo começou. Não lembro da matéria, da capa do meu caderno, de quem estava sentado ao meu lado, não lembro do professor e muito menos das conversas que travei...daquele dia...lembro apenas dela...a garota que me fez acordar animado para ir a escola todas as manhãs, retornar andando para casa no sol de meio-dia, não perder nenhuma aula de educação física a tarde e lamentar profundamente a chegada dos fins de semana. Eu que não acredito em amor à primeira visto, confesso, me encantei por aquela menina antes mesmo que ela se desse conta da minha existência. Ao longe a observei. Ela caminhava com passos apressados acompanhada de uma senhora e um garoto. Logicamente, deduzi se tratar de sua mãe e seu irmão. Passo a passo, eles se aproximavam do portão e eu ali...quase estendendo um tapete vermelho, quase soltando fogos de artifício. Dentro de mim um turbilhão de sentimentos confusos. "Que menina linda". Custei a acreditar que ela estudaria na mesma escola que eu. Somente quando eles passaram pelo portão é que deixei meu ceticismo de lado. Agora, só precisava saber mais uma coisa: "qual série será que ela vai fazer?". Para minha alegria ou tristeza a resposta era bem fácil. Se ela dobrasse à direita, ficaríamos entre a 5ª (a minha 5ª pensei) e a 6ª série. Se fosse para a esquerda, seu destino provavelmente seria a 7ª ou 8ª. Nem preciso dizer que desejei com todas as minhas forças que aquelas três pessoas desconhecidas dobrassem à direita. Naquele instante nem passava pela minha cabeçinha que mesmo que isso acontecesse, ainda existiam 3 turmas de 5ª e 2 de 6ª para disputarem a primazia daquela pequena dama. Bom, de fato isso tudo pouco importou, pois eles dobraram à esquerda. Somente quando eles desapareceram no corredor foi que me lembrei da aula. Estava atrasado. Porém também estava bobo, abestalhado, encantado - apaixonado? Era preciso voltar ao normal e desesperadamente encontrar um jeito de conhecer aquela garota angelical. Voltei para sala, tomei meu lugar e fiz o possível para não demonstrar nada do que se passava em meu interior. Conversei, prestei atenção na aula, brinquei e de repente a expressão "quase meu coração sai pela boca" fez muito sentido para mim. A tal garota estava pedindo licença e entrando em minha sala. "Ela é da minha turma...", "Ela é da minha turma...", "Ela é da minha turma..."...não sei dizer exatamente quantas vezes repeti isso com euforia para mim e para o mundo. Tão pouco precisei de mais alguma coisa para saber que aquele ano escolar seria mágico...afinal, eu acabara de conhecer meu primeiro amor.