quinta-feira, 25 de dezembro de 2008

Em cartaz


Era pra ser uma história daquelas sobre um mundo belo, quase encantado, que todos nós, em algum momento, gostaríamos de visitar. O script prometia uma trama montada em torno de dois personagens principais que se olhavam e amavam desde o primeiro instante. A verdade é que ele demonstrara grande interesse pelo roteiro desde o momento em que foi convidado a participar do espetáculo. Não seria a sua primeira peça e tão pouco o primeiro romance encenado. Mas por alguma razão a motivação era diferente. Ele sempre fez questão de asseverar aos quatro ventos que daria tudo de si. Principalmente quando conheceu àquela que faria o papel de sua amada. Seus olhos brilharam. E mais uma vez falou coisas como “quero dar tudo o que ficou preso nas falas antigas, toda a emoção, todo sentimento que não consegui extravasar...”, animando seus colegas que quase que instantaneamente passavam a pensar acerca da alma pura do artista que havia nele e estava desejosa de se entregar ao personagem e à realidade que dele advinha. Mas eu também estava lá e sabia que no fundo não era disso que se tratava.
Ele estava decidido a fazer daquela oportunidade a sua obra-prima. Durante os ensaios era ele quem sempre acertava todas as falas e ajudava os outros a lembrarem das suas. Era ele quem estava sempre sorrindo para todos os cantos, embora nunca tenha me notado. Acho que sua visão fora sempre a perfeição. A perfeição do palco e do espetáculo em si. Estava ali para encantar e instigar o mundo dos sonhos. Mas errou grosseiramente em não observar que nem todas as cadeiras estavam vazias enquanto ele ensaiava o seu intuito inspirador. Ele via, previa e antevia cenários, figurinos, reações, impressões e todo o universo que fazia parte daquela trama. Todavia, não foi exatamente capaz, como supostamente gostaria, de perceber o que estava indo além dele. Quis conhecer mais da bela moça com quem atuaria. A idéia era parecer o mais espontâneo e natural possível desde a estréia e para tanto, precisavam de uma intimidade real. Nada de muito anormal, se não o drama particular que se iniciou a partir dali. Quando ela aceitou a sua proposta, tudo pareceu maravilhoso. Era o principio das dores. Os telefonemas, as mensagens, os programas, os risos, o carinho, o beijo. Julgaram-se apaixonados mesmo sem saber ao certo quem estavam sendo. Pessoas ou personagens? Para ele, tudo estava claro. Era uma questão de perfeição. Para ela, nem tanto. E tudo foi como tinha de ser quando um se apega demais e o outro de menos. Mesmo quando estavam próximos havia o fosso da intensidade ou da ausência dela que os separava profundamente. Eles não percebiam. Mas eu sabia desde o inicio.
O grande dia chegou sem deixar muito evidente se aquilo seria um inicio ou um final. Eu estava na platéia. Primeira fila. Visão privilegiada. Ele foi o primeiro a entrar e definitivamente os seus olhos não puderam negar o susto. Não com o público em si, mas com o próprio palco. Como se naquele momento a verdade começasse a despencar sobre ele. Ele que sonhara e se esforçara tanto, esqueceu de considerar um fator primordial: o palco sempre deixa espaço para o inusitado, para o imprevisto. E ele percebeu isso muito tarde. A cena que mais importava lhe era ainda desconhecida, não fora escrita e nem ensaiada. Mas havia um show a ser feito. E ele o fez de maneira sublime. Foi um sucesso estrondoso em meio a um fracasso silencioso. Cada olhar, cada gesto, cada toque. Seria verdadeiro? Seria real? Naquele momento pouco importava. Tinha de continuar tentando a perfeição de que tanto falara. A obra-prima de sua existência nos palcos da vida dependia disso. Deu tudo de si, investiu o quanto pôde e no final aplausos, aplausos e mais aplausos dilacerando seu peito. O olhar havia mudado. Eu quase pude sentir a sua angustia e ouvir a pergunta que ecoava em sua mente: “o que dera errado afinal?” Ele não entendia. Eu sim! Eu sabia exatamente como tudo tinha começado e como tudo iria terminar. A história contada naquele palco era perfeita, mas a história vivida bem mais complicada. Ele realmente não sabia do final que lhe aguardava. Lembro da última cena. Foi tocante. O beijo arrancou suspiros e mais aplausos. As luzes se acenderam e os seus olhos mais uma vez brilhavam. A peça continuou sendo apresentada por toda aquela temporada de inverno. Não perdi um dia se quer, porém não observei mais o mesmo brio naquele olhar. O que por sinal me dava muito prazer. No entanto, voltando ao dia da estréia, após os agradecimentos ele continuou ali parado, olhando-a com o coração na mão, querendo com todas as suas forças se entregar à paixão. Sim, ele estava apaixonado e ninguém poderia negar isso, nem mesmo eu. Foi quando resolvi também entrar em cena. Levantei calmamente de meu lugar na primeira fila e me dirigi ao palco. Ele não percebeu a minha aproximação, mas garanto que nunca mais irá esquecer a minha partida. Não por mim mesmo, porém por aquilo que tomei de suas mãos, de seus olhos e de seu coração. Levei embora a obra-prima que ele havia produzido para si e que não poderia ser sua. Eu também amava com todas as minhas forças aquela mulher e de modo algum poderia abrir mão disso. Penso que assim como ele, me indaguei alguns dias sobre o beijo...fora ou não fora real? O que significava? Hoje já não importa. Importa o que ela me contou. Disse que quer ficar comigo e que aquilo foi um erro. Devo acreditar? A nossa história também era pra ser perfeita e talvez de algum modo seja. A nossa história não é a mesma daquelas que se contam num filme e muito menos em cima de um palco determinado, onde se conhece todas as cenas e as falas estão decoradas. É tudo bem mais incerto que isso. Bem mais incoerente do que se imagina. Com ações contraditórias, palavras impensadas e atitudes que doem mais que qualquer ferimento. Mas enquanto houver motivos a gente segue em frente, tentando...quer dizer, nem sempre há motivos. E dai a gente deve escolher se é hora de parar ou criar o novo a partir do que se tem. Por alguma razão eu a trouxe comigo e agora preciso dar mais um passo. A nossa história continuará em cartaz...se será o fim ou um recomeçar...a próxima temporada dirá. Garanta já o seu ingresso porque o show da vida não pode parar.

terça-feira, 9 de dezembro de 2008

"Canções da vida em notas tristes"


Tudo o que sei é que elas existem. As fases negras da vida são verdadeiras rupturas daquele mundo imaginado e pretendido. Uma espécie de mergulho em direção ao que jamais se desejou conhecer. Não se trata de uma escolha. É a vida. Ou pelo menos uma parte bem nefasta dela. Você tenta pensar numa realidade diferente e percebe que não consegue fugir. Ao contrário do que assevera aquela popular filosofia, o poder da mente não resolve todos os problemas. As marcas e cicatrizes espalhadas por uma existência impedem qualquer distração. Você sorri como os outros, fala como eles e com eles...mas as preocupações são bem distintas. Você não pode deixar de viver e deve correr atrás das mesmas coisas que todo mundo procura. Mas lá no fundo sabe que existe um limite. Sabe que não poderá ir muito além, que o máximo de si talvez nunca seja o suficiente para reverter o quadro. Esse fardo é o segredo mais dolorido que você carrega. Não fala dele pra quase ninguém e quando pensa em falar, pensa também em sumir. Um surto de inferioridade? Não. É bem mais que isso. O que se sente não é um simples medo de não ser reconhecido por alguém. Mas é o medo de reconhecer e amar o outro sabendo exatamente o que se é, o que se foi e o que continuará sendo independentemente do seu querer. Não estou dizendo que as fases negras da vida são só desgraças. Acontecem coisas boas nesse interregno. Coisas boas que em geral não se consegue manter por muito mais tempo exatamente pela obscuridade de cada uma das nossas facetas fisicas e espirituais. As fases negras existem, eu sei. Para todos? Quem sabe. É melhor que não. Elas costumam produzir alguns efeitos devastadores e durar bem mais do que se gostaria. E disso, infelizmente, não tenho a menor dúvida.