quinta-feira, 26 de fevereiro de 2009

Por uma nova estação


Mas e ela? Em algum momento alguém procurou saber o que a tão admirada e desejada atriz sentia? Às vezes tinha a impressão de ser um troféu. Aquele que soubesse melhor distinguir entre ficção e realidade, também seria aquele que levaria o grande prêmio. Mas talvez a coroa e sua rainha merecessem um pouco mais de atenção. Era tudo o que ela queria; que necessitava! Mas porque afinal eles ignoravam isso? Por que razão aqueles que a queriam tanto, que a observavam tanto, não viam aquilo que ela até sem querer deixava transparecer em seus gestos, em seus olhos, em suas palavras e até no seu silencio?
Obviamente ela gostara do papel a que fora escalada. Caso contrário bem poderia ter dito não. Havia outras trupes, outros enredos, outros atores e diretores que discerniam melhor e até mesmo que seriam capazes de levá-la a confundir-se melhor em meio a linha tênue que separa a arte e a vida. A verdade é que ela decidira ficar ali porque no fundo também sentia a necessidade de balançar aquele mundo real, quase estável, que aquele homem a quem chamava de amor a havia proporcionado. É... E foi mesmo isso; foi uma afronta. Não a ele simplesmente. Ela o amava. “Talvez uma afronta ao amor!” - Dizia a si mesma enquanto ele, sempre atento, a levava para os ensaios. E todos os dias que ficava para vê-la ensaiar ele via tudo, só não conseguia captar o obvio. Só não conseguia perceber que de alguma forma inexplicável aquele relacionamento a deixava desequilibrada, exausta mesmo. Várias vezes já havia pensado em mandá-lo embora de sua vida no intuito apenas de ver o que se passaria então a partir daí. Mas ela não conseguia fazer isso. Repetindo: ela o amava e disso tinha certeza. E acreditava também no amor dele, mas algo, algum desses sentimentos estranhos que avassalam nossas certezas, a informava que tudo nos dois era efêmero. Então quando veio a trupe e aquele ator; ela quis saber como é o que se passa. E tentou. E se entregou àquele jogo envolvente de tentar discernir arte e vida, palco e quarto/cozinha/cama, cenas e dia a dia, ato final e a quase insensatez da vida em continuar fluindo quando todos os viventes desesperavam-se por parar no final feliz. Mas ela não via isso como um ato arriscado; era uma atitude talvez desesperada, mas a seu ver plausível e louvável de obter certezas. Só não sabia ela, ou melhor, insistia em não admitir sua incapacidade quase inata de conviver com o que fosse concreto. Nela sim a velha máxima marxista funcionava com eficácia impar; pois tudo que era sólido em seu coração, desmanchava-se no ar das certezas do mesmo.
Quando Santiago convidou-a para conviverem mais na desculpa de parecer o mais real possível o enredo a ser encenado ela sabia que isso era desnecessário. Se ela aceitou, foi porque encarou aquele convite e o próprio homem a sua frente como a tão sonhada possibilidade de um amor embebido de instabilidade. Sem contar certos atributos que ele possuía e que a desconcertava: certo olhar infantil num corpo tão bem dominado por ele que parecia ser seu mesmo antes que os seus pais o concebessem. Isso a atraia tanto que dava a ela a certeza de que nele iria se perder. Contudo, bastou beija-lo uma única vez para se encontrar como nunca havia acontecido antes.
Até hoje ela não sabe dizer ao certo o que foi aquele turbilhão de emoções que ela mesma a havia imposto. Na verdade, nunca ousou pensar. E tudo isso pelo motivo simples de se perceber sem coragem suficiente para encarar qualquer “verdade” sobre o ocorrido durante os ensaios e toda a temporada.
Resolveu voltar com o homem que sabia que amava mesmo sabendo também que voltariam junto com ele todas as angustias e felicidades daquilo que ela conceituava como amor estável. E no fundo ela desejava isso com tanta intensidade que quando o diretor reuniu a trupe para convocá-los para uma temporada de primavera ela simplesmente disse não; que “talvez no outono!”. Santiago disse o mesmo. E todas as explicações pareceram evasivas perante o sucesso que tinha sido o espetáculo durante todo o inverno. Assim, ficaram na espera do outono todos aqueles que os admiraram no palco, mas que não conseguiram ou que não puderam adentrar no camarim. Hoje ela vive e atua e não sabe se espera. No entanto, ainda sem discernir se o que faz é ficção ou realidade, ela se entusiasma com a possibilidade de um novo enredo.