segunda-feira, 6 de julho de 2009

O homem e a folha de papel

O homem existe e a folha de papel também. Mas a existência de um e outro não é a mesma coisa. O ser humano tem necessidades. A folha de papel não. Ela pode muito bem existir em branco, sem dizer nada. O homem não vive sem dizer nada, ele precisa se comunicar. A folha de papel não. A folha de papel está sempre pronta para ouvir. O homem não. O homem nasceu para falar, enquanto que a folha de papel nasceu morta. Ela não reage a idéias, intrigas, sentimentos, fofocas, palavrões, xingamentos, sofrimentos, hipocrisias, falsidades e todo o resto. Ela é morta. Completa e inteiramente morta! E não tem problemas existenciais quanto a isso. O homem não. O homem é problemático. Demora muito tempo para entender o que deve ser feito com a sua vida. Enquanto isso joga palavras ao vento. Para uma folha de papel, qualquer palavra ao vento pode significar vida. Mesmo quando é machucada a folha de papel não precisa ser segura de si, pois não sente nada. O homem está sempre preocupado com a sua segurança. Quando não tem medo de morrer, tem medo de viver e nisto se priva de existir. A folha de papel existe para um fim que não cabe a ela determinar. O homem continua em seu problema existencial pensando que pode ser feliz. O sonho de felicidade do homem garante a vida de muitas folhas de papel. Mas a folha de papel não sabe quando tem vida e o homem não sabe quando já é feliz...


*Dedico à Welma com carinho...

sexta-feira, 3 de julho de 2009

Manchete de Faroeste II

Procura-se um sonho desaparecido em meio ao ultimo tiroteio da esperança com a realidade. O sonho foi visto pela ultima vez em meio aos tiros; caminhando de mãos dadas com a inocência. Mas esta, sabe-se que faleceu de ataque fulminante do coração ao ver a esperança em agonia. Do sonho nada mais se sabe. Ou pouco se sabe! Não foi encontrado corpo e, portanto, não se pode afirmar que esteja morto. Há alguns anos atrás, outros já davam como certo que ele havia morrido, mas ele buscou meio de retornar a morada. Muitos disseram que era um outro sonho, mas os que o conhecia desde antes sabiam que era o mesmo; apenas com um estilo um pouco diferente. Afinal, se as pessoas mudam, se a sociedade muda, porque ele também não poderia mudar?
Algumas testemunhas dizem que ele foi baleado pela realidade e que esta, pelos mesmos meios cruéis de sempre, o fez perceber que as pessoas por mais que o soubessem mudado ainda o encarava, o queria e acreditava nele como era outrora. Não há nada que comprove esses depoimentos, mas é consenso dos que estavam no local e daqueles que se esconderam nos prédios e casas ali perto, que em meio ao caos dos escombros ouvia-se desesperadamente um grito aflito e choroso que clamava: "- Me mate, me mate logo; Já não dizem que estou morto mesmo? Me mate, eu já estou morto, me mate, por favor me mate agora...." Não houve tiros, nem qualquer barulho de golpes que ao menos indique que o pedido foi realizado.
Alguns dizem que aquele clamor não era do sonho, que por maior o sofrimento que ele passasse, nunca pediria para morrer deixando na mão todos que acreditam nele. Outros juram veementemente que a voz era mesmo do sonho e que a culpa por ele ter pedido que o matassem não foi da realidade nem daquele homem que dissera pela primeira vez que ele estava morto; a culpa era de todos que sempre esperava tudo dele, mas não o compreendia humano.
Entre inocentes ou culpados o Sonho jaz ou vagueia por aí. Quem o encontrou ou encontrar, por favor, permita-o continuar a existir, nem que seja na esperança dos sonhos humanos....
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Fotografia: "Perdido no vazio do silencio" - Marta Ferreira
Música para este post.: When I Live My Dream - Seu Jorge