sábado, 3 de outubro de 2009

CARTA AOS MEUS AMIGOS

Eu sei que nem todos aqui estão interessados em saber o que eu sou ou deixo de ser. A verdade é que às vezes nem eu estou muito interessado nisso. Portanto, não tenho muitos problemas quanto ao fato de cada um ser livre para se ocupar do que quiser. Pensando nisso, resolvi escrever algumas linhas aos amigos que tem prazer em saber algo sobre mim. Muito embora elas também sirvam aos curiosos de plantão. Confesso que gosto de pensar que alguém nutre o desejo de me entender. Porém, não tenho mais a pretensão de querer controlar os significados ou entendimentos que cada um vai ter a respeito de mim.
Percebi que esse “quem sou eu” em alguns momentos é determinante para compreender o nível de proximidade que tenho com certos amigos. Alguns deles são como controladores de vôo. Têm idéias definidas sobre como tudo deve ser. Quando me apresento dentro dos limites e fronteiras estabelecidas, tudo certo. Do contrário, a coisa tende a desandar. Assim, o relacionamento parece tornar-se possível na medida em que confirmo ou não as idéias que eles têm sobre mim. E isto quase sempre é bem problemático, pois a tensão indica que a qualquer momento podemos nos perder em nossos choques e embates. O lado bom é que, enquanto dá ou vale à pena, acabamos por nos reinventar.
O curioso é que também existem aqueles amigos que aparentemente não estão nem ai para as mudanças que aconteceram ou que acontecem em mim. Estes, de modo geral, continuam me querendo e me tratando muito bem. Só não sei dizer até que ponto realmente se importam. O que sei é que alguns deles não se privam de puxar minhas orelhas quando acham que devem, demonstrando muita sinceridade e vontade de me oferecer o espaço do qual necessito para ser o que quero. E quero mesmo é desaprender para poder me apreender.
Tive ou tenho maior convivência com alguns destes amigos, mas isto não significa que eles sejam mais queridos ou que me queiram mais do que aqueles que estão distantes ou que venho conhecendo agora. O tempo da amizade é valioso, mas raramente é um continuum. Amigos também brigam e passam dias sem se bicar. Mas acima de tudo, se importam e respeitam. Do contrário, simplesmente passam e vão embora. Mais tarde, quando se redescobrem humanos, caso se redescubram humanos, eles retornam – pelos menos alguns deles. Pois do mesmo modo que a afinidade faz com que nos encontremos e distanciemos, a saudade também produz seus reencontros.
Existem amigos que ainda não conheço. Amigos que ainda me são estranhos ou que não são mais do que meros conhecidos agora. Amigos que se revelarão amigos exatamente no momento em que outros amigos estiverem me dando às costas. Pois os amigos são assim, numa hora anjos que nos decepcionam e noutra demônios que nos acolhem de um modo sem igual. Cada um dá aquilo que pode, segundo o que abriga dentro de si. Por isso agradeço aos céus pelos amigos que tenho! No fim das contas todos cumprem um papel peculiar. Agradeço a todos os que de algum modo partilharam ou compartilham suas jornadas comigo. Muito obrigado aos que me ensinaram e me adicionaram idéias, valores, pensamentos e sensibilidades. E muito obrigado também àqueles que souberam extrair essas coisas de mim. Os momentos, as palavras, os sorrisos e as tapas que me devotaram são partes valiosas do que sou.
Este instante é bastante singular para mim, por isso resolvi lhes escrever. Tenho pensado e tomado algumas decisões sobre os meus caminhos. Não sei o que o tempo fará conosco. Mas não me preocupo. “Enquanto vivemos nós somos o tempo”. E, assim, acreditando que nas nossas escolhas reside algum poder de manter aquilo que deve ficar, sei que ficaremos bem independentemente da distância ou da proximidade que nos unir ou separar. Desejo apenas que tenhamos coragem para sermos sinceros com o ser que mora em nós.
Aos que figuram como amigos sem dar muita certeza disso ou aos amigos de conveniência... Acho que não preciso dizer nada.
Aos demais, obrigado pela consideração.


Advertência: o texto acima pode dar a ilusão de que sou um excelente amigo. Mas, por favor, não se engane.