sexta-feira, 23 de abril de 2010

O revérbero

A conversa da vez era sobre teatro ou vida ou coisa assim. Ambos gostavam de refletir e analisar as convenções do universo social. Ela tinha o seu jeito todo peculiar de observar as coisas, sempre imbuída de racionalidade e realismo. Ele, todavia, era um pouco mais idealista e subjetivo, do tipo que costuma insistir em aspectos emocionais. Segundo ele, ela não era desse planeta. Segundo ela, ele era um rapaz cheio de sentimentos. Após algumas considerações, chegaram à conclusão de que vários papéis podem ser assumidos ou desempenhados em meio às relações que estabelecemos nos múltiplos lugares pelos quais transitamos. De modo que seríamos todos atores dotados de diversas facetas. “A máscara é necessária. É isso. E ponto”, concluiu a moça. E antes que ele pudesse fazer alguma objeção, ela resolveu interromper o diálogo por alguns instantes. Motivo? Uma espécie de fome súbita que sempre lhe acometia em horários impróprios. O típico assalto à geladeira virara tradição entre eles, assim como as conversas madrugada a fora.

Enquanto esperava o retorno dela, ele pensou no quanto tudo aquilo era curioso e na forma como as coisas haviam se transformado entre eles. Conheciam-se há muitos anos, mas o simples ato de conversar era uma completa novidade. Dos tempos antigos ficara apenas uma breve imagem fragmentada pelos lampejos da memória anunciando que não eram totalmente estranhos. Por isso, quando do reencontro, tiveram que se conhecer novamente. No caso deles, conhecer novamente era mais ou menos como conhecer pela primeira vez. E como se fosse a primeira vez, ela lhe pareceu de uma singularidade impressionante.

Refletindo sobre esse tempo no qual haviam se “perdido”, ele entendeu que estavam na verdade tratando de se encontrar, aprendendo a usar os pés para ganhar aquela medida de autonomia que só pode ser alcançada mediante o esforço e a conquista pessoal. Foi neste processo que eles mudaram e se reencontraram. Agora, como tinta nova e colorida numa casa que até então fora branca, descobriam o prazer do diálogo e a sensação agradável de saber mais de si enquanto se apreendia mais do outro. Ela agitava o mundo dele com as suas verdades incomuns e o fazia pensar sobre prismas diferentes. Da sua parte, ele lhe “apertava sem abraçar” com questionamentos que tinham como objetivo fazê-la falar sobre coisas que normalmente não diria. Ela gostava de confundi-lo e ele de lhe deixar curiosa. De vez em quando colidiam. E quando ele dizia “tudo bem” e ela “eu entendo” já sabiam que estavam na verdade discordando um do outro. Nesse movimento eles não apenas se conheciam como reconheciam e forjavam novas percepções.

Enquanto a moça não voltava do lanchinho rápido, ele mais uma vez olhou as fotos que havia tirado na ocasião passada e reparou naquilo que sempre fora a marca registrada dela: o sorriso. “Quando eu vejo alguém que gosto, não consigo segurar” teria lhe dito certa vez. Foi quando ele percebeu então que... Ela voltara falando do abraço apertado que deu no gato peludo cujo nome ele não lembrava. Tratou então de mudar de assunto para que não fosse descoberto em seus esquecimentos. Perguntou sobre os odores que lhe eram agradáveis e ela prontamente começou a falar sobre o cheiro das flores que ora lhe envolviam numa atmosfera de contemplação e ora lhe causavam reações alérgicas. Mas esse detalhe ele já sabia: era preciso ter muito cuidado e saber escolher muito bem o perfume antes de pensar em encontrá-la, caso contrário o resultado poderia ser constrangedor.

A verdade é que nenhuma cena no teatro ou na vida é congelada para que alguém possa nos explicar todos os seus pormenores e implicações. Ainda assim temos essa incrível capacidade de nos impressionarmos, admirarmos e sensibilizarmos das coisas que vemos e com as quais nos envolvemos. Talvez não seja tão fácil compreender a dinâmica desses dois, mas pode ser divertido tentar. Ao que parece, usando, eles brincavam de tirar as máscaras e pouco a pouco percebiam que nem ela era a Razão e nem ele o Sentimento. Entre as boas conversas, sorrisos e canções, havia agora saudade.

10 comentários:

(...) disse...

Opa dei uma olhada no seu blog.. achei bem bacana ^^ poderiamos nos linkar um ao outro o que acha? o meu blog é http://mistery-mind.blogpost.com

Se quiser, comenta la q eu linko =] bjs!

Welma disse...

Agora há saudade... e lagrimas!
Vou me recompor e volto.

Geraldo Brito (Dado) disse...

Profundo o texto...
Parabéns pelo blog!

Kyssiane Oliveira disse...

Adorei o seu blog, e principalemente aqueles fragmentos do post passado que estavam ótimos.
Um beijo

Pekena disse...

"Enquanto a moça não voltava do lanchinho rápido, ele mais uma vez olhou as fotos que havia tirado na ocasião passada e reparou naquilo que sempre fora a marca registrada dela: o sorriso"

Carol Camargo disse...

adorei teu texto O Revérbero,
parece um déjá vu meu!!
da uma passada no meu blog..
um abraço

Marilena' disse...

ADOREI !!!

Carlos Rodrigo disse...

Olá! Adorei seu Blog, axei MTO interessante e vc escreve MTO bem! Vou te seguir! Eu criei o meu a um mês e alguns dias, se quiser dar uma olhada fique a vontade!
Abs!

Sophi disse...

Se eu pudesse dar nomes diferentes a ele e ela seriam Priscila e Luiz Fernando.
Se eu pudesse oter somente uma resposta eu questionaria: Como alguem que não conheço descreve assim tão perfeitamente uma história que faz parte de mim?Minha hintósria, Minha e Dele.
Parabéns pelo que escreveu e obrigado por tê-lo escrito.

Ju disse...

Que alegria saber que meu professor é tmbm escritor! E um escritor de talento esplêndido! =)