segunda-feira, 5 de abril de 2010

Quem disse que Deus é Deus?


Quando Nietzsche afirmou que Deus estava morto, ele certamente causou a perplexidade e, por quê não, a revolta em milhares de almas que se dedicavam diariamente a propagar o contrário. O curioso é que a frase "Gott ist tot" – no original - continua assombrando e indignando muita gente. O problema é que somos muito bons em prestar atenção no emblemático e não entendemos o alegórico.

Tudo o que existe tem um nome. Até o que não pode ser visto ou caracterizado com precisão recebe definições. E damos nomes com muita naturalidade, como quem acredita piamente que o seu papel no mundo é nomear. O homem sempre quer ter um papel claro e objetivo em tudo o que se envolve, então geralmente importa ser e, quando não, saber quem foi o primeiro a distribuir alcunhas, pois o nome – que pode ser atribuído à alguém ou à alguma coisa por diversos motivos – ganha status de oficialidade. O homem gosta de chamar tudo pelo nome. Será? Pelo menos se sente mais confortável fazendo isso. Dar nomes é assunto muito sério no mundo dos homens. Em alguns casos requer, inclusive, a adoção de práticas jurídicas para legitimar o feito. Mas, acreditem, dar nomes não é apenas um artificio legal, é também um direito sagrado. Pelo menos para os homens literais que embalam suas Bíblias todos os dias antes de dormir. Está lá, no livro primeiro, em tom profético, “e o nome que o homem desse a cada ser vivo, esse seria o seu nome”. Curiosidade boba: quem deu a Deus o nome de Deus?

Talvez no Éden, essa coisa do homem dar nomes e não se complicar com isso tenha funcionado perfeitamente. A questão é que já não vivemos no Éden. Então, e no caso de se discordar do homem que nomeou o que gostaríamos de chamar por outro nome? Desde quando nesse mundo um fala por todos? E, no fim das contas, não teríamos todos o mesmo direito de nomear? E se num belo dia eu acordar e quiser chamar o sol de qualquer outra coisa que não seja sol? Eu sei, vão dizer que isso não muda os fatos e que ele continuará sendo sol independentemente do meu querer. Pois bem, esse é o ponto. O nome sol não é um fato, é só um nome. Recorrente porque assim o tornamos. Então, parafraseando o mestre Paulo Freire, refaço aqui a minha curiosidade ingênua e a transformo em curiosidade epistemológica: Quem disse que Deus é Deus?

Algumas pessoas estão prontas para difamar e insultar Nietzsche simplesmente por que ele tratou o nome como nome. No entanto, o mais interessante de tudo é que essas pessoas fazem a mesma coisa, tratando o seu Deus como mero substantivo capaz de ser caracterizado e definido. Para elas e para mim escreveu Rubem Alves:

“Palavras são gaiolas. O falado é aquilo que a razão engaiola. Um Deus que pode ser engaiolado por palavras não é Deus. Deus é um “Passáro Encantado”. Para ele não há palavras”.

Créditos da Imagem: Mario Gruber/Mão/Óleo sobre tela/1983

11 comentários:

Welma disse...

Nossa! Adorei...

P.S.: vc me deixou sem palavras. rs

Leonardo Oliveira disse...

"Mestre Paulo Freire"...Sabia que você acabaria enfraquecendo a guarda. Isso é muito bom, afinal de contas, antes de tudo, somos Educadores. Ah e quanto ao texto, está muito bom. Saudações Bicolores!!

Alan disse...

Welma: muito bom saber que você gostou... esse texto nasceu de uma forma especial.

Léo: valeu pela visita cara... e continuo dizendo que tu és um mercenário e se vendeu para o inimigo! rsrs

Geraldo Brito (Dado) disse...

Boa reflexão...

Alan disse...

Poxa Fê... brigadão pela visita!

Alan disse...

Valeu tbm Geraldo, volte sempre :D

Márcia, vulgo Feto disse...

Alaan, vai ser preciso uma longa conversa no msn pra comentar esse texto! Por hora, deixo aqui meu queixo caído e um Magnífico!
Parabéns Dr :)

Thiago Ya'agob disse...

Talvez eu ache um outro nome, tão mais cruel a princípio, e
tão mais ele-mesmo. Ou talvez não ache. Amor é quando não se dá
nome à identidade das coisas? ...

De agora em diante eu poderia chamar qualquer coisa pelo
nome que eu inventasse: no quarto seco se podia, pois qualquer
nome serviria, já que nenhum serviria. Dentro dos sons secos de
abóbada tudo podia ser chamado de qualquer coisa porque
qualquer coisa se transmutaria na mesma mudez vibrante.


Clarice Lispector in A paixão segundo G.H.

...

Tenha uma ótima semana.
Abraço.

Enderson disse...

Li o texto e refleti na Magnitude do Deus soberano e eterno em relação a minha ínfima inteligência, com arrogância de um deus. abraço Alanzão

Alan disse...

Thiago, não resisti, e vou reforçar o momento Paixão segundo G.H com um excerto que tem a ver com tudo isso aqui: "Mas é a mim que caberá impedir-me de dar nome à coisa. O nome é um acréscimo e impede o contato com a coisa. O nome da coisa é um intervalo para a coisa. A vontade do acrescimo é grande - porque a coisa nua é tão tediosa".

Enderson: obrigado pelo tempo que você dispensou para ler e refletir. Achei interessante sua frase final... talvez seja possível associá-la com "Minha grandeza, à procura da grandeza do Deus, levara-me à grandeza do inferno".

Vuttikrai Saechue disse...

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